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Uma década de auxílio no processo de aprendizado de crianças e adolescentes

por: Cassiane Rodrigues
Data: 05/05/2019 | 07:00

Nesta segunda-feira, 6, o Centro Integrado de Educação e Saúde (Cies) completa 10 anos de atuação em Venâncio Aires. Neste período, já foram realizados mais de 30 mil atendimentos para crianças e adolescentes de até 18 anos com dificuldade de aprendizagem.

Foi no Cies que Andreia Willms, 36 anos, encontrou apoio e esperança. O filho mais novo, Nycolas Gastler, 8 anos, teve um traumatismo craniano após sofrer um acidente de trânsito, em uma van escolar, em 2014.

O menino, com 2 anos e meio na época, foi encaminhado para um hospital em Porto Alegre, onde os médicos não deram esperanças para a mãe. Segundo ela, disseram que Nycolas precisaria fazer uma cirurgia, com elevado risco de óbito. A família optou por não realizar o procedimento, mas foi alertada que o menino iria regredir muito e não conseguiria aprender a ler e escrever antes dos 12 anos de idade.

Após a tristeza e a angústia que vieram com a notícia, a mãe foi em busca de outras respostas e perspectivas. 'Ele virou novamente um bebê depois do acidente. Voltou a usar fraldas, não conseguia firmar os pés no chão, mas eu nunca desisti dele', conta a mãe. Depois de meses viajando a Porto Alegre para o tratamento, foi no Cies que Nycolas encontrou a ajuda que precisava para o seu desenvolvimento.

Hoje, ele frequenta semanalmente o centro para uma sessão com a psicopedagoga Deni de Bittencourt. Além disso, tem consultas com a neuropediatra e frequenta o Caps Infantil (Caps i). Emocionada, Andreia relata que depois do diagnóstico de que o filho só seria alfabetizado após os 12 anos, ouvi-lo ler, hoje, aos 8 anos, é uma vitória. 'Quem vê ele hoje não acredita que passou por tanta coisa, evoluiu tanto graças à ajuda que tivemos aqui', conta.

Foto: Cassiane Rodrigues / Folha do Mate Nycolas, 8 anos, comemora a alfabetização após sofrer um traumatismo craniano aos 2 anos e meio
Nycolas, 8 anos, comemora a alfabetização após sofrer um traumatismo craniano aos 2 anos e meio

ATENDIMENTO

1 Segundo a coordenadora do Cies, Viviane Oliveira, a média de atendimentos é de 380 a 400 por mês. Com o trabalho em conjunto com a rede de saúde municipal, Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Casa de Acolhimento, Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e Centro de Atenção Psicossocial Infantil (Caps i), o Cies foi um dos pioneiros no estado, sendo referência para outros municípios, que vieram conhecer o trabalho desenvolvido. Localizado na rua Reinaldo Schmaedecke, o centro fica próximo à Biblioteca Pública desde que foi inaugurado.

2 As crianças atendidas no Cies são encaminhadas por meio da escola ou pelas unidades de saúde. Hoje, a equipe é formada por três psicopedagogas, uma estimuladora precoce, uma fonoaudióloga, uma fisioterapeuta, uma neuropediatra, uma neurologista, dois psicólogos, uma orientadora educacional, um médico clínico geral e quatro estagiários (dois na recepção e dois estudantes de Psicologia).

3 Quando a criança chega até o centro, é avaliada por uma equipe interdisciplinar para identificar quais os melhores caminhos a seguir em cada caso. Quanto a periodicidade dos atendimentos, cada paciente frequenta conforme a situação e necessidade. 'Aqui investigamos e tratamos toda e qualquer causa das dificuldades das crianças', enfatiza a coordenadora.

4 Sobre a evolução com o passar dos anos, Viviane ressalta que o Cies teve muitas mudanças. Uma delas é a informatização de todos os documentos de cada criança atendida. 'Antes era tudo feito à mão', destaca. Além disso, o centro teve um aumento significativo de profissionais de diferentes áreas, a fim de suprir a demanda, que também é cada vez maior. Logo que foi criado, atendia somente com neurologista, psicólogo e psiquiatra.

Estimulação precoce
Desde 2018, o Cies atende crianças que necessitam de estimulação precoce para o desenvolvimento neuropsicomotor. Os atendimentos, em sua maioria, são encaminhados pelas Escolas Municipais de Educação Infantil (Emeis). 'A demanda de crianças pequenas aumentou muito, temos uma lista de espera', afirma Viviane. Ela destaca que muitos estudos dão conta que quanto mais cedo começar a estimulação em crianças com atraso no desenvolvimento, maior a chance de superar as defasagens.

Foto: Cassiane Rodrigues / Folha do MateViviane Oliveira, coordenadora do centro, destaca que mais de 30 mil atendimentos já foram feitos durante os 10 anos de atuação
Viviane Oliveira, coordenadora do centro, destaca que mais de 30 mil atendimentos já foram feitos durante os 10 anos de atuação

'Nosso trabalho é de imensurável importância de prevenção. Podemos prevenir problemas, na fase adulta, causados pela falta de estímulo na infância.'
VIVIANE OLIVEIRA
Coordenadora do Cies Venâncio Aires

O órgão é mantido em parceria de três secretarias: Saúde, Educação e Desenvolvimento Social. Em 2015, a Prefeitura de Venâncio Aires foi contemplada com o Prêmio Gestor Público devido ao Cies, no qual a temática era "Proteção à infância e à adolescência". O reconhecimento é voltado aos municípios que aplicam o dinheiro público em ações dirigidas à população.

'Tudo que precisei eu consegui aqui'
Nycolas é estudante do 3º ano da Escola Estadual Wolfram Metzler. A mãe Andreia tem uma gratidão especial à professora Aline, incansável para fazer com que o menino se sinta bem e enturmado com os colegas. 'Ver ele lendo e escrevendo agora, mesmo com as limitações, é um orgulho', afirma.

Foto: Cassiane Rodrigues / Folha do MateNycolas frequenta semanalmente o Cies
Nycolas frequenta semanalmente o Cies

Andreia diz que o filho ainda tem algumas crises de convulsão - que diminuíram muito com o uso de medicamentos - e hoje já não usa mais fraldas. 'Ele toma banho sozinho, tudo no tempo dele, mas damos independência', conta.

Ela relata que no início foi muito resistente quanto à utilização de medicação, principalmente. 'A gente sempre acha que não precisa, mas depois que testa e vê o quanto melhora, percebe que era a solução'. Para ela, o apoio que recebe da equipe do centro é importante para o desenvolvimento do filho e também para ela, como mãe, por ter a quem recorrer quando precisa de ajuda, para saciar uma dúvida, ou simplesmente quando precisa ser ouvida.

PRECONCEITO
Andreia disse que tudo que viveu com Nycolas foi muito difícil. Logo após o acidente, ele demorou a reconhecer os pais e toda a rotina mudou. Porém, de acordo com ela, o mais doloroso é conviver com o preconceito das pessoas. 'O que machuca mais é a maneira como as pessoas olham para o meu filho', desabafa. O menino tem algumas características parecidas com as dos autistas, como dificuldade de ficar parado e agitação em lugares fechados e com muito barulho. 'Não é culpa dele, ele não vê perigo nas coisas. Mas ver mães dizendo para o filho não brincar com ele, por ser doente, dói muito', relata.

Nycolas deve voltar para atendimento em Porto Alegre aos 12 anos de idade. Até lá, família, Cies e Caps i seguem em busca de evolução. 'Todos precisam estar envolvidos e engajados para o desenvolvimento, assim é só conquista', finaliza a mãe.

'Hoje estou realizada, graças ao apoio que tive no Cies. Se fosse preciso, passaria por tudo de novo, menos pelo preconceito das pessoas.'
ANDREIA WILLMS
Mãe de Nycolas

Foto: Cassiane Rodrigues / Folha do MateFamília e profissionais unidos em busca de aprendizado
Família e profissionais unidos em busca de aprendizado