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Com 80% da folha de março quitada, hospital fica no 'radar' do Sindisaúde

por: Carlos Dickow
Data: 17/04/2019 | 06:30

Pelo terceiro mês consecutivo, em 2019, o Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) não teve recursos suficientes para pagar os funcionários até o quinto dia útil. Conforme o administrador da instituição, Fernando Branco, inicialmente foram quitados 50% da folha e, ontem, mais 30% foram depositados nas contas bancárias.

Os 20% ainda em aberto, diz ele, devem ser repassados nos próximos dias. De acordo com Branco, as dificuldades devem seguir pelo menos até junho. 'Não estamos satisfeitos e, aproveitando, quero ressaltar o profissionalismo dos nossos colaboradores, que em momento algum deixaram que estes problemas internos que enfrentamos chegassem aos pacientes, no atendimento', argumentou.

O administrador voltou a justificar o atraso no pagamento em virtude de repasses estaduais, que não têm entrado no caixa da casa de saúde, afirmou que sabe da frustração relacionada à falta de salários e pediu apoio dos colaboradores, poder público e comunidade para que o hospital possa superar esta fase de turbulência. 'Tenho sido transparente e sempre disse que as dificuldades iriam aparecer, mas temos deixado todos avisados em relação a cada passo que damos.Não receber repasses do Estado, em especial do IPE (Instituto de Previdência do Estado), nos deixa sem saída, muitas vezes. O IPE é responsável por cerca de 15% do nosso faturamento, mas faturamos R$ 350 mil por mês e mandam R$ 50 mil, no máximo', explicou, acrescentando que espera já para o próximo mês a regularização dos recursos.

Foto: DivulgaçãoAdministrador do HSSM, Fernando Branco admite clima de insatisfação, mas projeta dias melhores a partir da regularização de repasses anunciada pelo Governo do Estado
Administrador do HSSM, Fernando Branco admite clima de insatisfação, mas projeta dias melhores a partir da regularização de repasses anunciada pelo Governo do Estado

Branco admitiu que há um clima de instabilidade pelos corredores do hospital por conta da situação enfrentada no momento, porém ressaltou que, além do avanço em relação à folha de pagamento, as férias já gozadas também estão sendo colocadas em dia e a estimativa é de que a condição melhore com o tempo. O administrador assegurou que tem mantido a comunicação com o Sindisaúde e com os colaboradores. 'O sindicato tem conhecimento de todo o cenário de crise. Tivemos reunião com os representantes na semana passada e levamos todas as informações a eles. Estamos fazendo tudo que é possível no sentido de superar este quadro, mas não dependemos apenas das nossas próprias forças', concluiu.

 

SINDICATO
Presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Santa Cruz do Sul e Região (Sindisaúde), José Carlos Haas confirmou, ontem, a informação de que nova parte da folha foi depositada na conta dos funcionários. No entanto, ele disse que ainda preocupa o fato de que pelo terceiro mês consecutivo não houve pagamento dos salários em dia. 'É ruim. Quem vai trabalhar com um sorriso no rosto sem ter recebido?', questionou.

Foto: Divulgação / DivulgaçãoPresidente do Sindisaúde, José Carlos Haas diz que preocupação em relação aos pagamentos cresce a cada novo adiamento de data para liquidação
Presidente do Sindisaúde, José Carlos Haas diz que preocupação em relação aos pagamentos cresce a cada novo adiamento de data para liquidação

Conforme Haas, com este novo depósito, que elevou o percentual de quitação da folha para 80%, não será necessário convocar a categoria. No entanto, ele não descarta uma mobilização se o problema persistir. 'Muitas pessoas têm nos trazido relatos dramáticos. Fomos bastante duros com a direção do hospital, pois não temos culpa por atrasos do Governo do Estado, esta que é a principal justificativa para todos estes dias de demora', comentou.

Fernando Branco informou que o HSSM recorreu à Prefeitura em busca dos cerca de R$ 220 mil que ainda restam ser quitados da folha de março. O Município, segundo ele, ainda não deu uma resposta sobre a viabilidade ou não de adiantamento do valor.

'O alerta está dado. Não é nossa intenção e esperamos que não seja necessário, mas se for preciso, vamos para a guerra.'
JOSÉ CARLOS HAAS
Presidente do Sindisaúde

'Há suspiros de angústia no hospital'

Na manhã de ontem, a reportagem da Folha do Mate ouviu profissionais que trabalham no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM). Com a condição de terem as identidades preservadas, aceitaram dar entrevista relatando como 'sentem' o clima da casa de saúde neste período de instabilidade. Todas as fontes convergiram no sentido de que o ambiente está 'pesado' e que o atraso nos pagamentos 'mina' cada vez mais a equipe. 'Há suspiros de angústia no hospital', declarou uma das pessoas ouvidas. A entrevista ocorreu antes da confirmação de que mais uma parcela dos vencimentos de março havia sido depositada.

De acordo com as fontes, a principal lamentação é de que a direção da instituição de saúde não tem deixado a comunidade venâncio-airense informada de todo o contexto vivido no HSSM. 'Ninguém quer saber se o hospital está me devendo e os motivos pelos quais eu não tenho dinheiro. Querem o que a gente deve e dizem que não estão sabendo de crise', falou outra fonte, que ainda acrescentou: 'Nos pedem para mantermos calma, mas até quando? Não temos interesse de fazer paralisação, pois sabemos que a comunidade precisa de atendimento, no entanto também queremos a valorização e o reconhecimento'.

'Quem deveria estar cuidando da saúde dos outros, está tendo que se preocupar com sua, pois está adoecendo. E esse cenário de crise e salários atrasados está influenciando.'
FONTE DO HOSPITAL
Ouvida pela Folha do Mate

ATESTADOS

1 As fontes ouvidas pela Folha do Mate afirmaram que, desde que os salários começaram a atrasar, houve aumento de apresentação de atestados médicos por parte dos colaboradores.

2 O administrador do hospital, Fernando Branco, confirmou que o número de afastamentos por atestados 'teve um pequeno incremento neste período'.