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Dossiê: uma polêmica atrás da outra

Prefeito Giovane Wickert foi à tribuna do Legislativo para falar sobre a Marcha Municipalista, mas acabou retomando o assunto do dossiê e oposição contra-atacou

por: Carlos Dickow
Data: 03/04/2019 | 06:30

A entrega de um dossiê ao Ministério Público (MP), com apontamentos de possíveis irregularidades na aplicação de recursos federais na área da Assistência Social entre os anos de 2013 e 2016 (gestão de Airton Artus, do PDT), não para de render polêmicas. A última se instalou na Câmara Municipal, durante a sessão desta segunda-feira, 1º. O prefeito Giovane Wickert (PSB) - que foi quem levou as informações ao conhecimento do MP - ocupou espaço no período da tribuna livre para falar sobre a Marcha Municipalista, que acontece de 8 a 11 de abril, em Brasília, mas o assunto acabou indo para outro caminho.

Após esclarecer as atividades das quais participará, na Capital do país, e solicitar que os vereadores contatem deputados federais e senadores em busca de emendas parlamentares, Wickert, 'provocado' pela líder de governo na Casa, Sandra Wagner (PSB), entrou no assunto do dossiê. Relatou todos os apontamentos constantes na documentação; reforçou a surpresa por ter recebido guias da União em seu nome, pedindo pagamentos que se aproximam de R$ 1 milhão; e sustentou que, 'se há indícios de irregularidades, não podemos ser omissos, senão daqui a pouco vem cancelamento de repasses e fica tudo pior'.

CONTAS
Também integrante da base governista, o presidente da Câmara, Eduardo Kappel (Progressistas), foi um pouco mais longe. Ele pediu cópia do dossiê, 'para vermos se não é o caso de instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) ou encaminhamento à Comissão de Ética da Casa'. Ainda fez referência ao fato de que as contas de 2016 do ex-prefeito Airton Artus serão analisadas na Casa em breve e questionou Wickert se ele aprovaria as contas caso fosse vereador. 'Não sou pretensioso ao ponto de influenciar o voto dos vereadores. Votem de acordo com a consciência, pois Executivo e Legislativo são poderes independentes. Façam o próprio julgamento, pois amanhã ou depois serão as minhas contas', respondeu.

Foto: Carlos Dickow / Folha do MatePrefeito Giovane Wickert usou a tribuna na sessão de segunda-feira, 1º, e voltou a falar sobre o dossiê entregue ao Ministério Público (MP), com apontamentos da gestão de Airton Artus (PDT)
Prefeito Giovane Wickert usou a tribuna na sessão de segunda-feira, 1º, e voltou a falar sobre o dossiê entregue ao Ministério Público (MP), com apontamentos da gestão de Airton Artus (PDT) 

'Não podemos desconsiderar estas irregularidades ou indícios. Há apontamentos por desvio de finalidade na aplicação de recursos e isso precisa ser apurado. Eu fazia parte da Administração, mas todos sabem que tinha atuação limitada, porque o ex-prefeito Airton rompeu relações comigo.'
GIOVANE WICKERT
Prefeito de Venâncio Aires

'Quem mal não faz, mal não pensa'

A vereadora Ana Cláudia do Amaral Teixeira (PDT) respondeu as declarações feitas por Wickert. A pedetista, que já ocupou a função de secretária de Habitação e Desenvolvimento Social - na gestão entre 2009 e 2013 -, afirmou que 'é normal ocorrerem apontamentos como estes e o Município, ao invés de ficar jogando as coisas ao vento, deveria se preocupar em fazer a defesa, pois são recursos públicos'.

Para Ana Cláudia, a postura de Wickert, de levar o dossiê ao MP, é uma tática eleitoreira antecipada. 'Quem mal não faz, mal não pensa. Eu mesma cansei de fazer defesas como estas. Me coloco à disposição, aliás, para colaborar, já que tenho minhas dúvidas se há gente competente para este tipo de trabalho. Passo por cima de tudo isso que o prefeito está fazendo, porque amo Venâncio Aires', disparou.

Também vereador do PDT, Tiago Quintana reforçou a tese de intenção política. 'Ficou muito claro que foi mais uma jogada ensaiada, já conhecemos bem a maneira do prefeito atuar. Desta vez, pelo menos não convocou uma coletiva de imprensa para requentar o assunto', declarou. O parlamentar acrescentou ainda que 'o atual prefeito fala mais das contas do Airton do que das dificuldades que ele mesmo enfrenta, com a intenção de criar uma espécie de palanque para rivalizar politicamente'. Quintana concluiu dizendo que espera que Wickert vá ao Legislativo falar sobre o assunto quando o dossiê for arquivado.

Apontamentos

? Não foi confirmada a colocação de 150 telhas e 750 metros quadrados de piso em uma escola do interior, com recursos do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti).

? Desvio de finalidade na utilização de uma máquina de café, que deveria ser instalada no Centro de Referência em Assistência Social (Cras) do bairro Battisti, mas ficou no Gabinete do Prefeito.

? Conserto de alarme e ar-condicionado da Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Social, com recursos que supostamente não poderiam ser utilizados com esta finalidade.

? Veículo Megane doado pela Polícia Federal (PF), utilizado pela Associação Beneficente Evangélica Restaurando Vidas (Asberv), está circulando entre São Paulo e Minas Gerais, quando deveria estar em poder da Prefeitura de Venâncio Aires.

? Valor de R$ 89 mil investidos na cozinha industrial da Cooperativa dos Produtores de Venâncio Aires (Cooprova) previa cursos de capacitação, que não teriam sido realizados.

? Almoço em restaurante, coquetel em hotel e ônibus para Piratuba, para atividades de grupos de terceira idade, cujas atas de reuniões afirmam que foram custeados com recursos particulares.

? Outras situações que geraram duas Guias de Recolhimento da União (GRUs), com valores de R$ 812 mil e R$ 134 mil, aproximadamente, em nome do atual prefeito, Giovane Wickert (PSB).