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O que eu faço com esse lixo?

por: Juliana Bencke
Data: 21/07/2018 | 07:31

Quando os caminhões descarregam o lixo recolhido em Venâncio Aires e os resíduos começam a passar pelas esteiras da Usina de Triagem, em Linha Estrela, os profissionais que atuam na separação dos materiais se deparam com diversos itens que não deveriam chegar até lá. 'Recebemos muitas lâmpadas, que se quebram no meio do lixo, além de medicamentos e pilhas', conta a coordenadora da usina, Tailane Hauschild.

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateDestinação adequada de resíduos perigosos e de difícil reciclagem exige comprometimento de consumidores, Poder Público, estabelecimentos comerciais e fabricantes
Destinação adequada de resíduos perigosos e de difícil reciclagem exige comprometimento de consumidores, Poder Público, estabelecimentos comerciais e fabricantes

Sem possibilidade de serem encaminhados para a reciclagem, os materiais acabam seguindo junto às 33 toneladas de resíduos transportadas, diariamente, para o aterro sanitário de Minas do Leão. A medida, entretanto, descumpre a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Segundo a Lei 12.305, de 2 de agosto de 2010, fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, além de consumidores e titulares dos serviços públicos têm a responsabilidade de dar o destino correto ao lixo.

Temos que entender que não existe, simplesmente, 'jogar fora'. Todos somos responsáveis pelas nossas sobras e precisamos repensar o consumo. O aterro sanitário também tem um prazo de vida útil e está ficando lotado."
Norma Barden, presidente do Conselho Municipal do Meio Ambiente

 O objetivo da chamada Logística Reversa é justamente fazer com que o lixo retorne ao início do ciclo de produção: pelas mãos do consumidor, deve voltar para o estabelecimento comercial que, por sua vez, deve entregá-lo ao fornecedor. Ao fim desse processo, de acordo com a lei, 'os fabricantes e os importadores darão destinação ambientalmente adequada aos produtos'.

Presidente do Conselho Municipal do Meio Ambiente, a gestora ambiental Norma Barden explica que resíduos considerados perigosos, como pilhas, baterias e tintas não podem ser misturados aos recicláveis nem mesmo ao lixo orgânico. 'Se eles estiverem com o lixo orgânico, podem molhar e contaminar o solo e a água', alerta. O mesmo vale para medicamentos e embalagens de remédios e para eletroeletrônicos, que devem ser descartados em pontos específicos.

Possibilidades

Ao mesmo tempo em que os resíduos perigosos acabam sendo descartados no lixo comum, itens possíveis de serem reciclados 'se perdem' no meio das montanhas de lixo que chegam à Usina de Triagem, e seguem diretamente para Minas do Leão. 'Como é a quantidade de lixo que chega é muito grande, acabamos não conseguindo separar itens pequenos, para priorizar o que é maior e pode agregar valor na venda do material', explica a coordenadora da usina, Tailane Hauschild.

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateApesar de serem recicláveis, itens pequenos, como esponjas de louça ou escovas de dente
Apesar de serem recicláveis, itens pequenos, como esponjas de louça ou escovas de dente "se perdem" entre as toneladas de lixo na Usina de Triagem e seguem para o aterro sanitário

Norma observa, entretanto, que algumas empresas já realizam projetos de recolhimento de itens, em todo o país, para encaminhamento à reciclagem, possibilitando que os consumidores também façam a sua parte. É o caso da Colgate e da Scotch-Brite, que junto à TerraCycle, recebem e reciclam escovas de dente, embalagens de creme dental e esponjas de louça. 'Elas realmente efetivam a logística reversa', ressalta a gestora ambiental.

Logística reversa obrigatória

- Agrotóxicos, seus resíduos e embalagens;

- Pilhas e baterias;

- Pneus;

- Óleos lubrificantes, seus resíduos e embalagens;

- Lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista;

- Produtos eletroeletrônicos e seus componentes.

>> 36 toneladas de lixo recolhido em Venâncio Aires chegam, diariamente, à Usina de Triagem de Linha Estrela. Do total, apenas em torno de 8% do material são aproveitados, encaminhados à reciclagem. O percentual poderia ser maior, se as pessoas separassem corretamente o lixo.

Lâmpadas e pilhas: o desafio de efetivar a logística reversa

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateSchwertner mostra pilhas guardadas pela secretaria, enquanto empresas fabricantes não as recolhem
Schwertner mostra pilhas guardadas pela secretaria, enquanto empresas fabricantes não as recolhem

Tirar do papel a lei da Logística Reversa ainda é um desafio, em Venâncio Aires, especialmente, com relação a pilhas e lâmpadas. 'Temos quilos de pilhas que recolhemos, mas nenhuma empresa está realizando o recolhimento, mesmo que sejam obrigadas', comenta o secretário de Meio Ambiente Clóvis Schwertner.

A questão das lâmpadas deve ser debatida em uma reunião com empresários, Ministério Público e a representantes da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Venâncio Aires (Caciva), na segunda quinzena de agosto. Segundo o secretário, a destinação correta das lâmpadas preocupa, devido ao risco que as fluorescentes quebradas apresentam para a saúde.

'A composição dessas lâmpadas tem mercúrio, que é o que dá o brilho da luz. Ele é muito volátil e, no momento em que a lâmpada quebra e ele entra em contato com o ar, se espalha rapidamente. Quem inspirar isso pode contrair doenças e se intoxicar', explica.

A situação é acompanhada pelo Ministério Público, que cobra uma ação mais efetiva do Município e dos estabelecimentos comerciais que vendem lâmpadas. 'Em breve, vamos nos reunir com a Secretaria de Meio Ambiente para pensar em estratégias de efetivar isso. As empresas que vendem têm a obrigação de receberem os produtos de volta', enfatiza o promotor de Justiça Pedro Rui da Fontoura Porto.

De sete elétricas contatadas pela Folha do Mate, duas recebem lâmpadas queimadas quando há compra de uma nova e outras quatro recebem lâmpadas queimadas, também, mediante pagamento taxa que varia de R$ 0,80 a R$ 1,20. O valor é utilizado para pagamento das empresas que recolhem as lâmpadas nos estabelecimentos comerciais.

Além das empresas especializadas, qualquer estabelecimento que vende lâmpadas têm o dever de recebê-las. 'Sabemos que minimercados de bairros, por exemplo, revendem as lâmpadas e têm dificuldade de cumprir a lei, pois vendem uma quantidade pequena. Uma das sugestões que vamos propor é de que estabelecimentos comerciais maiores sejam pontos de recolhimento', afirma Schwertner.

O que fazer?

1 Vidros podem ser descartados no lixo seco, pois são vendidos pela empresa que administra a usina de triagem. Se estiverem quebrados, a orientação é de que sejam colocados dentro de uma caixa de leite ou outra embalagem que impeça que alguém se corte.

2 Uma das ideias da Secretaria de Meio Ambiente é criar pontos de coleta de garrafas e outros tipos de embalagens de vidro, em supermercados.

3 Roupas velhas devem ser descartadas apenas quando já não for possível reutilizá-las. Antes disso, doe para campanhas de arrecadação ou instituições como Centro Promocional João XXIII, Parceiros da Esperança (Paresp) ou Casa de Acolhimento (Casa de Passagem).

4 O mesmo vale para móveis, que podem ser doados. Se não houver mais condições de uso, o indicado é que a madeira seja quebrada e retirado o tecido, para encaminhar à usina.

5 Com relação aos pneus, o Município estuda criar um ponto de depósito, para recolhimento periódico do material, por empresa que realiza a reciclagem. Assunto deve ser abordado em uma reunião com proprietário de borracharias.