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Dia do Índio: Modo de vida preserva cultura Kaingang

por: Jaqueline Caríssimi
Data: 19/04/2019 | 07:00

Com um papelzinho na mão escrito à caneta, a pequena Marciele Cadete, 3 anos, passa com uma cestinha na mão oferecendo o artesanato que a avó Neusa Nascimento, 37 anos, faz sentada no gramado lateral da estação rodoviária de Venâncio Aires, junto com mais companheiras da tribo Kaingang. 

Marciele ainda não fala direito e, como não sabe ler, mostra o papel virado, em branco, para quem está à espera do ônibus, mas, mesmo assim, não desiste e segue com a cestinha na mão.
A atividade é uma forma de estar ao lado da avó e de preservar um pouco do que ainda resta da tradição do índio. A cultura indígena ainda vê a prática como o ato de estender a mão para dar e receber.

Ela acompanha a avó nas andanças pelas cidades. O jeito de viver se repete ao dos pais, avós e da geração de índios da tribo kaingang. Elas são da reserva indígena de Nonoai, cerca de 300 quilômetros de Venâncio Aires, mas às vésperas da Páscoa e do Natal, transferem sua estadia. O objetivo é comercializar os trabalhos artesanais que fazem com palha.

São cestas, balaios, bolsas, arcos e flechas e outros artesanatos, que expõem no centro, em especial, na rua Osvaldo Aranha. Na Capital do Chimarrão, estão cinco mulheres e oito crianças que ainda não estão em idade escolar. Quem precisa estudar fica na aldeia, explica Neusa Nascimento, 37 anos.

Ela diz que somente as mulheres viajam para outras cidades para vender o artesanato, os homens ficam em suas casas dando continuidade ao trabalho na lavoura, que é de onde vêm os alimentos para subsistência. 'A gente planta, mas as compras a gente faz na cidade', diz Neusa, que orgulha-se em dizer que as crianças aprendem desde cedo o ofício da arte e da língua Yanomami, falada pelo grupo.

Márcia Pinto, 33, também ensina a língua da tribo aos seus filhos. Ela é mãe de Ludiane, 4, Jonathan, 5, e de Nathan Nascimento, de 8 meses.

Foto: Jaqueline Caríssimi / Folha do MateMulheres e crianças, viajaram mais de 300 quilômetros para mostrar e vender o artesanato típico indígena na cidade
Mulheres e crianças, viajaram mais de 300 quilômetros para mostrar e vender o artesanato típico indígena na cidade

DIA A DIA
Pelas cidades onde vão para vender os produtos artesanais que fazem, o lugar onde ficam pouco importa. Em Venâncio Aires, por exemplo, estão sediados na estação rodoviária. Em um espaço, os índios colocam seus pertences, dormem e se alimentam. 'A gente toma banho no posto, quando nos deixam', diz Neusa. Quando estão longe da aldeia, os alimentos são comprados pelo grupo. ' Um ajuda o outro', explica Neusa. Eles se alimentam de marmitas compradas no restaurante da rodoviária. 'Estamos longe de casa e aqui não temos como cozinhar', destaca.

COMEMORAÇÃO
O Dia do Índio, hoje, 19 de abril, é comemorado pelas tribos. Neusa conta que na aldeia a tribo se reúne para festejar. Com apoio do prefeito que vai até a aldeia, são compradas carnes e feita uma festa na qual 'para os índios, é tudo de graça', conta Neusa. Ela não sabe informar por quanto tempo o grupo permanece em Venâncio Aires, mas acredita que, depois da Páscoa, voltam para suas terras. 

Foto: Jaqueline Caríssimi / Folha do MateJonathan, Ludiane e Marciele aprendem e brincam com os arcos e flechas artesanais
Jonathan, Ludiane e Marciele aprendem e brincam com os arcos e flechas artesanais

INTEGRADOS À VIDA URBANA
1 Os índios já estão integrados às práticas próprias da vida urbana. Na aldeia tem televisão, luz elétrica, geladeira e convivem em grupos. De acordo com pesquisa do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular.

2 Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos 1.222 índios em 32 aldeias em todas as regiões do país. Na região Sul do País, 71% dos índios recebem o Bolsa-Família.

3 Neste grupo está Neusa, que diz receber R$ 80 mensais. Com cinco filhos e três netos, é do artesanato e de doações que se mantém e que ajudam os filhos.

Neusa gravou uma mensagem em vídeo na língua kaingang. Ela diz o seguinte: 'Amanhã (hoje) é o dia do índio. Nós somos kaingangues e precisamos comemorar todos juntos, se alegrar, pois nosso dia é muito importante para nós. 19 de abril é o nosso dia. Obrigada.'