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“Gostaria que todos pudessem aprender o que eu aprendi com eles”, diz missionária que passou 30 anos com índios

por: Juliana Bencke
Data: 07/05/2017 | 12:30
Foto: Arquivo pessoal / Teresinha WeberIntegrantes da tribo Enawenê-Nauê, localizada a cerca de 940 quilômetros de Cuiabá
Integrantes da tribo Enawenê-Nauê, localizada a cerca de 940 quilômetros de Cuiabá

Um trabalho de três décadas entre indígenas de Mato Grosso e Amazonas deu à agricultora Teresinha Weber, 63 anos, um entendimento diferente sobre a vida. Moradora de Vila Santa Emília, a aposentada atuou como missionária, entre 1976 e 2006, com cerca de dez povos indígenas, em um trabalho que incluía desde o tratamento de gripes até a orientação sobre os direitos dos índios e a relação com o homem branco.

"Se prestássemos atenção à maneira que o índio se relaciona com a terra, não precisaríamos de nenhum milagre para manter o planeta", considera Teresinha. Para ela, a cultura indígena é uma riqueza para o país e deveria despertar o interesse de todos os brasileiros. "Gostaria que todos pudessem aprender o que eu aprendi com eles."

Longe do trabalho como missionária há mais de dez anos, Teresinha guarda, na memória, as experiências com povos como o Enawenê-Nawê - tribo com a qual iniciou as atividades, no fim da década de 1970. Inicialmente como missionária da Operação Amazônia Nativa (Opan) - originalmente chamada de Operação Anchieta -, mais tarde, a venâncio-airense atuou como integrante do Conselho Indiginista Missionário (Cimi). "Nunca realizamos um trabalho de catequese com os índios, mas sim de luta pela terra, de formação de lideranças, em um diálogo intereligiosos."

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateCocar é uma das lembranças que Teresinha guarda do tempo em que viveu entre os índios
Cocar é uma das lembranças que Teresinha guarda do tempo em que viveu entre os índios

Entre as principais tarefas nas tribos indígenas estava o diálogo com os nativos com o objetivo de orientá-los sobre a estruturação da sociedade que começava a invadir a vida indígena. Em 1977, quando Teresinha e outras duas pessoas iniciaram o trabalho com os Enawenê-Nawê, o povo havia tido o primeiro contato com o homem branco há apenas três anos.

Vi esses povos na sua origem, como sempre foram, sem interferência do homem branco", Teresinha Weber.

Teresinha lembra as diferenças que existem nas relações dos povos indígenas. "Existe a troca de alimentos, a partilha, e a terra é comum. O índio não tem nenhuma malícia, para eles o roubo não existe, nem mesmo o pobre e o rico. São todos iguais. O que explicávamos sobre o mundo do branco não fazia muito sentido para eles, porque eles não conheciam esse mundo. Era algo fora da realidade", recorda.

Nessa etapa inicial, a principal tarefa dos missionários era auxiliar no tratamento da gripe - uma doença contraída pelo contato com o homem branco e desconhecida para o povo indígena. "Nos primeiros anos, nossa presença era importante para tratar essas gripes que eles não conseguiam dominar com a sua medicina tradicional."

Foto: Arquivo pessoal / Teresinha WeberTeresinha entre os Enawenê-Nauê, em abril. Ao fundo, as malocas onde vivem os indígenas
Teresinha entre os Enawenê-Nauê, em abril. Ao fundo, as malocas onde vivem os indígenas

Em defesa dos direitos

Com o passar do tempo, o dialeto indígena passou a fazer parte do vocabulário dos missionários, que estreitaram laços de amizade com os nativos. Se, antes, ficava-se no máximo alguns dias no local, mais tarde, os voluntários permaneciam até um ano em meio aos índios. "Desenvolvemos um trabalho de proteção aos direitos dos indígenas, motivando a organização deles."

Na opinião de Teresinha, atualmente, a demarcação de terras indígenas é o principal desafio para evitar invasões no espaço dos índios.

A demarcação é uma necessidade por causa da relação com o branco. Antes de 1.500 nunca teve terra demarcada e nunca teve disputa de terras. A necessidade de demarcação é para o branco respeitar aquela terra, não porque o índio poderia sair. Muita gente diz que é pouco índio para tanta terra, mas, se formos ver, os grandes fazendeiros têm muito mais terra por pessoa. Além disso, é outra maneira de se relacionar com a terra, não desmatam grandes áreas', Teresinha Weber.

Foto: Arquivo pessoal / Teresinha WeberCriança Enawenê-Nawê. Ao todo, são quase mil pessoas na triboCriança Enawenê-Nawê. Ao todo, são quase mil pessoas na tribo

Curiosidades

- No início de abril deste ano, Teresinha participou de um seminário em Cuiabá. Durante a estadia em Mato Grosso, aproveitou para visitar a tribo Enawenê-Nawê, com a qual trabalhou durante cinco anos, nas décadas de 1970 e 1980. A população, que na época era de 150 pessoas, agora, chega a quase mil. De acordo com a aposentada, apesar das mudanças que ocorreram ao longo dos anos, a religiosidade do povo permanece intacta. "É um povo muito místico, com muitos rituais. É lindíssimo. Eles só comem peixe, utilizam para os rituais e para as festas."

- Entre os povos com os quais Teresinha trabalhou como missionária, no Mato Grosso e Amazonas, estão Enawenê-Nawê, Apurinã, Jarawara, Zuruahã, Paumari, Myky, Jamamadi, Deni e Banauá.

- Nos períodos em que prestava assistência aos índios, Teresinha vivia junto a eles - os missionários eram 'adotados' por uma família, como filhos ou irmãos, e sempre retornavam à mesma maloca (oca, casa). "Toda vida deles é em família. Uma coisa que não entendiam era como estávamos lá sozinhos, sem a nossa família."