fechar

É trabalho de mulher

por: Débora Kist
Data: 08/03/2019 | 10:00

Talvez esta seria uma matéria para falar do trabalho mais recente de zelo popular em um espaço público de algum bairro Venâncio Aires. E o é. Mas também é para falar de quem faz esse trabalho e, às vezes, nem é percebido.

Uma matéria para falar sobre enxada, machado e foice, itens que fazem parte da história de muitas mulheres do interior de Venâncio Aires. Objetos que resumem o trabalho de muitas que são mães, professoras, industriárias, comerciantes e por aí vai. Trabalho que também sempre fez parte da vida da autônoma Ilga Maria de Souza, 54 anos.

Mas, agora, ao invés da foice, ela vai 'abrindo capoeira' com uma roçadeira. Claro que no trevo de acesso ao bairro Battisti, na RSC-453, o matagal não chega a tanto, mas foi com uma roçadeira que ela resolveu ajudar na limpeza do local. Ilga estava lá, na última quarta-feira, 6, para fazer aquele capricho em uma das entradas secundárias da cidade.

'Tem gente que me critica, principalmente outras mulheres, dizendo que isso é trabalho de homem. Mas não é! É trabalho de mulher também', destaca Ilga. A autônoma ressalta ainda que as críticas são um desrespeito a outras gerações. 'E nossas mães e avós, que sempre trabalharam duro, lidando na roça, com enxada e foice? As pessoas esquecem. Então porque eu não deveria trabalhar com uma roçadeira, que ainda é mais fácil?'

Foto: Débora Kist / Folha do MateCom enxada, foice ou roçadeira, Ilga diz que trabalho pesado faz parte da vida das mulheres
Com enxada, foice ou roçadeira, Ilga diz que trabalho pesado faz parte da vida das mulheres

VOLUNTARIADO

A destreza para falar do trabalho é a mesma com a qual narra a própria vida. Praticamente uma voluntária nata, Ilga diz que deve tudo ao pai, já falecido, Osvaldo Rubi de Souza. 'É o maior exemplo de voluntariado que conheci. A vida toda ele fez pelos outros.'

A autônoma ainda não é aposentada e, para se manter, faz faxina durante a semana. Mas a maior parte do tempo, ela ocupa com ações voluntárias. Participante ativa nos locais que passou, seja na cidade ou na Linha Brasil - onde morou muitos anos - , Ilga esteve inserida em CPM de escolas, como catequista ou simplesmente ajudando a cuidar dos espaços públicos e de lazer. 'Faço por gosto. Quem faz trabalho voluntário, não perde tempo, ganha. A gente só ganha com isso, é a melhor sensação do mundo.'

Homenagem

Ilga Maria de Souza será uma das homenageadas do Lions Clube Melvin Jones de Venâncio Aires, pela passagem do Dia da Mulher. Na próxima quinta-feira, 14, às 15h, na Sociedade de Leituras, ela receberá o prêmio por seu trabalho voluntário.

PARA FICAR

Hoje moradora do bairro Coronel Brito, Ilga já andou bastante. Nasceu no município gaúcho de São Martinho, foi criança para o Paraná e com 'vinte e poucos' voltou para o Rio Grande do Sul. No início, só para visitar amigos da família Rosa, do Loteamento Algayer, mas depois para ficar.

Ainda no Paraná, trabalhou na paróquia católica e, durante um curso em São Paulo, conheceu o padre Aldo José da Silveira. Ele lhe falou que Venâncio era 'muito acolhedora'. As boas referências do padre Aldo, somadas ao convite dos Rosa para morar em Venâncio, convenceram Ilga a ficar.

Hoje divorciada e morando no bairro Coronel Brito, ela apenas deseja que os filhos Ezequiel, 26, e Samuel, 21 também sigam o gosto pelo voluntariado. Ela conta, orgulhosa, que o mais velho passou em primeiro lugar em um concurso público no Paraná e o caçula já é sargento do Exército.

'É fruto do que se faz em equipe'

Empunhando uma roçadeira, que é dela mesma, Ilga 'baixou' a grama no trevo do bairro Battisti. Para dar cor ao local, doou algumas mudas de 'onze-horas', que já que essas flores não sofrem tanto nessa época do ano. Mas, para o trabalho, ela não estava sozinha. 'Isso aqui é fruto de trabalho em equipe. E no voluntariado, quanto mais gente pegar junto, mais fácil de acontecer.'

Ilga contou com a ajuda de Loiva Freitas, do Lions Clube Melvin Jones, e de Lucimar Bittencourt, proprietário da Maigui Bom. O empresário, aliás, é figura conhecida na cidade em ações sociais e foi uma das pessoas a 'adotar' o trevo, colaborando para sua manutenção nos últimos anos. Na próxima semana, Bittencourt deve levar as tintas para a pintura dos pneus - que servem como floreiras - e dos cordões do meio-fio.

Foto: Débora Kist / Folha do MateLucimar Bittencourt e Loiva Freitas (à esquerda) também ajudam a cuidar do trevo do Battisti
Lucimar Bittencourt e Loiva Freitas (à esquerda) também ajudam a cuidar do trevo do Battisti