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Transporte para hemodiálise no olho do furacão

por: Carlos Dickow
Data: 05/12/2018 | 07:00
Foto: Carlos Dickow / Folha do MateEnfermeira Tatiana (esquerda) e médica Maria Elaine: para elas, secretário está transferindo a responsabilidade na questão que envolve o transporte de pacientes em tratamento de hemodiálise
Enfermeira Tatiana (esquerda) e médica Maria Elaine: para elas, secretário está transferindo a responsabilidade na questão que envolve o transporte de pacientes em tratamento de hemodiálise

Declarações do secretário de Saúde, Ramon Schwengber, na tribuna da Câmara, nesta segunda-feira, 3, desagradaram profissionais do Serviço de Uronefrologia de Venâncio Aires (Suneva). O titular da Saúde foi ao Legislativo atendendo convite do vereador Adelânio Ruppenthal (PSB), que há mais de um mês fez duras críticas à Administração e ao próprio Schwengber por conta de pacientes de hemodiálise residentes em Linha Julieta que não são beneficiados com o transporte público para as sessões.

Conforme o parlamentar, estas pessoas precisam tomar dois ônibus para chegar à cidade - e depois para retornar para casa - e ainda têm que caminhar pelo menos cinco a seis quilômetros até suas residências. 'Peço atenção a estes pacientes desde o primeiro dia do nosso governo e sempre ouvi do senhor que esperasse mais um mês, que ia dar certo. Mas já foram dois anos e ainda não deu. Vai dar?', questionou Ruppenthal.

Em resposta, o secretário explicou que é uma equipe técnica do próprio setor de hemodiálise quem faz 'uma análise clínica e social de cada paciente e nos informa a real necessidade de transporte'. O titular da Saúde informou que, atualmente, 16 pacientes são contemplados com o transporte para as sessões de hemodiálise, 'dois só com viagens de volta e 14 ida e volta'. O total de pessoas passando por este tipo de tratamento em Venâncio, segundo ele, é de aproximadamente 70. Sobre os casos de Linha Julieta, Schwengber prometeu analisar com agilidade para ver a viabilidade de o Município atender as solicitações.

DESCONFORTO - Para Tatiana Kader Ibdaiwi e Maria Elaine Latosinski, respectivamente enfermeira e médica nefrologistas responsáveis técnicas pelo serviço de hemodiálise em Venâncio Aires, a forma como o secretário colocou as informações induz a comunidade - e principalmente os pacientes não atendidos com o transporte - a pensarem que elas são as responsáveis pelos nomes não estarem na lista. Há 25 anos trabalhando no setor, Maria Elaine diz que sempre houve a polêmica em torno deste assunto e que somente uma legislação específica, com regramentos normatizados, pode evitar este tipo de situação. 'Do jeito que o secretário falou, é uma transferência de responsabilidade, pois não somos nós que decidimos quem deve ou não ser transportado. Até porque isso é direito de todos os pacientes', comentou.

Conforme Tatiana, enquanto Schwengber falava na tribuna da Câmara, seu telefone começou a tocar com mensagens de pessoas perguntando sobre os motivos de familiares em tratamento não estarem na lista de atendidos com o transporte. 'Fiquei realmente indignada. Se ele tivesse falado que a situação é difícil, e a gente sabe que é, mas que vamos em conjunto tentar resolver a questão, tudo bem. Mas, da maneira que falou, parece que nós escolhemos as pessoas. Isso não é verdade, eu com 20 anos de trabalho aqui, não me sinto qualificada para escolher entre um ou outro paciente, pois eu não sei o amanhã de cada um', desabafou, acrescentando que o secretário foi quem, durante reunião, pediu que só fossem encaminhados à Saúde pedidos de transporte para 'pessoas com deficiências físicas incapacitantes'. 'A gente queria para todos, mas só solicita para os casos extremos, e muitos não são atendidos', completou.

Mais transporte, pouco conhecimento da realidade

Tatiana e Maria Elaine reconhecem que a atual Administração oferece transporte a um número maior de pacientes em tratamento de hemodiálise do que outras gestões, mas se dizem preocupadas com uma série de outras questões. De acordo com a médica, 'a hemodiálise é um serviço de alta complexidade e deveria ter mais atenção do poder público, pois as visitas dos representantes da Administração são muito raras'. Ainda conforme ela, '99% do nosso público é do SUS, quase 90% desse percentual é carente e precisa fazer sessões de hemodiálise três vezes por semana, muitas vezes sem condições de pagar pelo deslocamento'.

A enfermeira sugeriu que o Município defina um profissional para fazer visitas às residências dos pacientes, para conhecer a realidade de cada um e informar à Secretaria da Saúde sobre a necessidade de transporte. 'Se nós tivéssemos o poder de decisão, todos estariam sendo transportados. E, se o secretário tivesse atendido as nossas solicitações, enviadas a partir de critérios que ele mesmo definiu, pelo menos o dobro de pacientes estaria na lista', garantiu.

MICRORREGIÃO - Dos 70 pacientes em tratamento de hemodiálise atualmente, 56 são de Venâncio Aires. Outros 14 vêm dos municípios da microrregião: oito de Vale Verde, quatro de Passo do Sobrado e dois de Mato Leitão. De acordo com as profissionais do Suneva, todos os pacientes das outras cidades têm transporte de ida e volta para as sessões garantido, sem necessidade de avaliação. Os pacientes estão divididos em dois grupos. Metade faz sessões às segundas, quartas e sextas-feiras, às 5h, 10h e 13h, e o restante comparece às terças, quintas e sábados, nos mesmos horários. 'Não temos problemas com o atendimento. Dizem que o trabalho é bom, mas sabemos que é excelente. O problema está fora daqui', concluiu Maria Elaine. Um projeto prevendo a ampliação da estrutura do serviço de hemodiálise está pronto. O setor está com a capacidade física superada. É necessário um aporte de R$ 1 milhão para a construção do novo espaço.

'Não estamos falando de uma carta de consórcio, para dizer que determinado paciente foi contemplado. São seres humanos, com a mesma doença e os mesmos direitos. Não temos como escolher entre um ou outro.'

TATIANA KADER IBDAIWI
Enfermeira do Suneva

'Também pedimos que o secretário, quando não acatar as solicitações que enviamos, chame as famílias dos pacientes e esclareça os motivos para a negativa do transporte. É responsabilidade dele, mas recai sobre nós.'

MARIA ELAINE LATOSINSKI
Médica do Suneva

'São pessoas debilitadas, que precisam de ajuda. Eram cinco, mas uma faleceu. O que me indigna é que no governo passado conseguiam buscar e levar em casa e, agora, não conseguimos nem levar.'

ADELÂNIO RUPPENTHAL
Vereador do PSB