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Pontes abandonadas da ERS-244 voltam à pauta

por: Carlos Dickow
Data: 31/03/2018 | 06:00
Fenachim
Foto: Carlos Dickow / Folha do MateNo ano passado, secretário dos Transportes, Pedro Westphalen, foi levado até uma das pontes e classificou a situação como 'materialização da falência do Estado'
No ano passado, secretário dos Transportes, Pedro Westphalen, foi levado até uma das pontes e classificou a situação como 'materialização da falência do Estado'

Um assunto que é pauta na Folha do Mate há mais de 20 anos reacendeu esta semana a partir da divulgação de um vídeo em rede nacional, no Jornal da Globo. O venâncio-airense Célio Elgert, durante um passeio de bicicleta, resolveu gravar diante de uma das pontes que, como ele mesmo disse, 'vão do nada para lugar nenhum', na ERS-244, estrada que liga a Capital Nacional do Chimarrão a Vale Verde. A mídia foi para o ar no quadro 'O Brasil que eu quero' e virou comentário frequente nas rodas de conversa não apenas em Venâncio, mas também nos municípios da região.

O que Elgert mostrou para o Brasil é uma situação que incomoda a comunidade regional pelo fato do desperdício de dinheiro público e da descontinuidade de obras por conta da transição no Governo do Estado. Iniciada quando Antonio Britto era governador do Rio Grande do Sul, a construção das pontes na 244 teve movimentação somente até o governo seguinte, de Olívio Dutra, para nunca mais entrar na mira de administrações que se sucederam: Germano Rigotto, Yeda Crusius, Tarso Genro e José Ivo Sartori. Hoje, as estruturas são verdadeiros 'elefantes brancos na estrada'.

São três pontes que deveriam servir de base para a chegada da pavimentação asfáltica, mas que há muito tempo são a representação de um sonho que, ao que tudo indica, está muito longe de se tornar realidade - se é que algum dia se concretizará. A última vez que se falou das três pontes da ERS-244 foi no ano passado, quando lideranças regionais se reuniram no Parque Municipal do Chimarrão para tratar do tema. Logo em seguida, o então secretário estadual dos Transportes, Pedro Westphalen, conheceu as estruturas e as classificou como 'materialização da falência do Estado'.

NÃO PRIORITÁRIA - A "comoção" em torno do assunto, entretanto, não foi suficiente para colocar a obra da 244 entre as prioridades do governo gaúcho. Atolado em dívidas e sem sequer conseguir pagar em dia o salário do funcionalismo, o Piratini diz que sabe dos problemas existentes entre Venâncio Aires e Vale Verde, mas não ousa anunciar qualquer medida para mudar a realidade. Enquanto uma solução não é apresentada para a situação, o tema segue na pauta dos prefeitos e líderes da região. Mais como uma obrigação - já que políticos não podem jogar a toalha -, mas sem qualquer visibilidade de efeito prático a curto prazo. Nem a limpeza da estrada é encarada como uma possibilidade.

Foto: Reprodução / G1Vídeo do venâncio-airense mostrando as pontes que 'vão do nada para lugar nenhum' foi divulgado no Jornal da Globo, no quadro
Vídeo do venâncio-airense mostrando as pontes que 'vão do nada para lugar nenhum' foi divulgado no Jornal da Globo, no quadro 'O Brasil que eu quero'

Promotor analisa a situação

O promotor de Justiça Pedro Rui da Fontoura Porto é outro interessado na situação das pontes do que vão do nada para lugar nenhum na ERS-244. Ele tem em mãos uma espécie de dossiê com reportagens a respeito do assunto e afirma que vai analisar a viabilidade de responsabilização por conta de uma obra que, de acordo com seu entendimento, 'não podia ter começado sem a certeza de que seria finalizada'. Em virtude do tempo decorrido - mais de duas décadas -, ele acredita que será difícil apontar responsáveis, contudo diz que fará a sua parte enquanto autoridade.

Cópia da licitação da obra e outros documentos estão sendo solicitados pelo promotor de Justiça para verificação, mas ele admite que tem mais a intenção de saber 'o que está acontecendo' do que propriamente encaminhar alguma novidade em relação ao assunto. 'Se ela (a obra) era útil ou não, isso não se discute neste momento, mas precisamos ter em mente que não deveria ter sido executada apenas parte da obra, sem a convicção de que ela seria finalizada', reforça Porto.

O que disseram

'Desde que nos reunimos no Parque do Chimarrão, no ano passado, e depois levamos o secretário Pedro Westphalen nas pontes, nada evoluiu. O deputado Edson Brum ficou de ver algumas situações relacionadas a desapropriações de terras, de buscar documentos junto ao Governo do Estado. É uma questão bem complicada, mas nós precisamos mexer no assunto, para que ele não caia no esquecimento. Se movimentarmos, pode acontecer alguma coisa. Não dá é para ficar de braços cruzados.'
Dário Martins, integrante da mobilização

'É uma demanda de mais de 20 anos e, temos que ser sinceros: o Governo do Estado não dispõe de recursos, no momento, para esta demanda. Há a necessidade de desapropriação de área para que a situação evolua e, além disso, é uma obra que leva de quatro a cinco anos para ser iniciada quando tiver dinheiro. Temos a questão da dívida do Estado, os salários atrasados e pelo menos 60 municípios sem acesso asfáltico, ou seja, sem recurso, não podemos falar em movimento. Para esta e outras ações, precisamos de dinheiro novo, pois o Governo Sartori é o primeiro depois de muitos anos que não pode fazer empréstimos, pois o Governo Tarso deixou a coisa no teto do endividamento. Precisamos concordar, contudo, que foi irresponsabilidade dos governos que iniciaram aquelas obras sabendo que não conseguiriam concluir. Vamos seguir trabalhando, sem desistir.'
Edson Brum, deputado estadual do MDB

'Quando nos reunimos em Venâncio Aires, saímos daí em busca de apoio para a demanda. Levamos a pauta para o Daer, que informou que daria uma atenção especial à ERS-244. Sabemos que isso não aconteceu e que o orçamento da Secretaria Estadual dos Transportes não permitiu a destinação de recursos para esta reivindicação. Sendo sincero, se alguém disser que vai sair algo em seguida para a estrada, ou tem uma informação muito privilegiada do governo, e acho que não pode ter, ou não estará falando a verdade. Na região de Venâncio Aires, por exemplo, sabemos que a prioridade é a RSC-287, que é uma espécie de aorta do trânsito por aí, que estamos trabalhando para não obstruir e gerar um colapso. Na 244 temos que fazer pelo menos a limpeza e um alargamento, que é o dever, mas nada pode ser encaminhado sem a autorização do Daer.'
Heitor Schuch, deputado federal do PSB

'No ano passado houve vários momentos de mobilização, levamos a situação ao conhecimento do Governo do Estado, mas evolução, na prática, realmente não houve. O Município está aberto a uma parceria, nem que seja para realizarmos melhorias na 244, mas sozinha a Administração de Venâncio Aires não tem condições de deflagar ações na estrada. Acho importante que o assunto não caia no esquecimento, por mais que a demanda seja de difícil execução, e nesse sentido o vídeo do venâncio-airense vem para contribuir para que o assunto volte à pauta. Além da mídia, com repercussão nacional, temos também o fato de que o secretário mudou, talvez possamos mais uma vez ir a Porto Alegre em comitiva para reforçar a nossa intenção. São fatos novos, nos motivam a movimentar, novamente, a questão.'
Giovane Wickert, prefeito de Venâncio Aires

'Do ano passado para cá, tivemos conversas entre os prefeitos da região, mas nada que nos mostrasse, ao menos no horizonte, uma possibilidade concreta de novidades em relação à ERS-244. A gente sabe que, infelizmente, não há recursos disponíveis no Governo do Estado para este tipo de iniciativa. Nem por isso deixamos de buscar apoio, mas é uma situação bem complicada. Sempre que temos uma agenda em Porto Alegre, procuramos circular pelos gabinetes e tocar no assunto, no entanto o momento é de cofres raspados no Estado. Eu, particularmente, já fui mais otimista em relação a esta pauta, mas parece que a coisa esfriou de vez, que a situação caiu no esquecimento. Retomar o assunto é importante, pois penso que não devemos desistir, por mais difícil que seja a jornada.'
Carlos Gustavo Schuch, prefeito de Vale Verde

Importante: A reportagem tentou contato com o prefeito de Passo do Sobrado, Helio de Queiroz, para que comentasse o assunto, já que ele também participou dos momentos de mobilização mais recentes pela ERS-244. No entanto, ele não atendeu às ligações feitas para o seu telefone pessoal, nem respondeu a recado deixado na sua caixa de mensagens.