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Na microrregião, três cubanos do Mais Médicos deixarão o país

Uma profissional atua em Mato Leitão e outra em Vale Verde. Além disso, um médico que atua em Santa Cruz do Sul, mora em Passo do Sobrado, onde já atendeu à população

por: Cristiano Wildner
Data: 16/11/2018 | 07:00
Foto: Divulgação O Médicos já recebeu quase 20 mil médicos cubanos e que atenderam 113,5 milhões de brasileiros
O Médicos já recebeu quase 20 mil médicos cubanos e que atenderam 113,5 milhões de brasileiros

Após o governo de Cuba anunciar que deixará de atender pelo Programa Mais Médicos no Brasil, três profissionais da ilha no Caribe que estão na microrregião de Venâncio Aires sairão de seus postos e devem retornar ao país de origem. A medida foi anunciada após as autoridades cubanas discordarem de uma série de exigências que seriam adotadas pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), a partir da posse, para a permanência dos participantes estrangeiros do programa.

Dois estrangeiros compõem equipes de Estratégia de Saúde da Família e atendem em unidades básicas de saúde de Mato Leitão e Vale Verde. Além disso, em Passo do Sobrado reside um terceiro médico cubano, mas que atua pelo programa em Santa Cruz do Sul. Além do atendimento aos pacientes, os profissionais realizam também, ao longo do período da iniciativa, curso de especialização e aperfeiçoamento em atenção básica.

Os médicos recebem o pagamento por meio de uma bolsa de pouco mais de R$ 11 mil mensais, além de auxílio-alimentação e moradia. A maior parte dessa cifra, porém, é remetida ao governo cubano. A igualdade salarial e a submissão dos participantes do programa à revalidação de diploma eram duas das condições impostas por Bolsonaro para a permanência dos trabalhadores. O programa foi criado no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT).

"As modificações anunciadas impõem condições inaceitáveis e violam as garantias acertadas desde o início do Programa", diz o texto oficial emitido pelo governo cubano, acrescentando que "não é aceitável questionar a dignidade, o profissionalismo e o altruísmo dos colaboradores cubanos". O comunicado considera que as declarações de Bolsonaro têm "referências diretas, depreciativas e ameaçadoras à presença de nossos médicos" e fala em desrespeito à Organização Pan-Americana da Saúde e ao acordo com Cuba "ao questionar a preparação de nossos médicos e condicionar sua permanência no programa à revalidação do título e como única forma de se contratar individualmente".

O Programa de Médicos já recebeu quase 20 mil médicos cubanos e que atenderam 113,5 milhões de brasileiros. Com a decisão, mais de 11 mil médicos devem deixar o Brasil e retornar para o país de origem.

RISCO DE DESASSISTÊNCIA

O presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Mauro Junqueira, avalia que a saída dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos pode levar a uma desassistência temporária da população atendida por eles, que são mais da metade dos profissionais participantes do programa. Segundo Junqueira, são 24 milhões de brasileiros nas áreas onde os cubanos trabalham, principalmente em locais de difícil acesso.

CONSELHO DE MEDICINA

O Conselho Federal de Medicina (CFM) se manifestou sobre o anúncio do governo de Cuba de retirada de seus profissionais do Programa Mais Médicos. O CFM afirma que o Brasil conta com médicos formados em número suficiente para atender às demandas da população. O texto ressalta que cabe ao governo oferecer aos médicos brasileiros condições adequadas para atender a população.

GOVERNO FEDERAL

Após o anúncio da saída dos cubanos do programa Mais Médicos, o Ministério da Saúde informou que irá abrir um edital nos próximos dias para contratar novos profissionais. Candidatos brasileiros terão prioridade na convocação, como já ocorria nos editais anteriores. O ministério informou que outras medidas para ampliar a participação de brasileiros vinham sendo estudadas, como a negociação com os formados por meio do Programa de Financiamento Estudantil (Fies). Assim, a pasta irá conversar com a equipe de transição de Bolsonaro sobre a necessidade de adotar essas ações.

MÉDICAS DE VALE VERDE E MATO LEITÃO POSSUEM BOA ACEITAÇÃO JUNTO À POPULAÇÃO

Foto: Claudio Froemming / Folha do MateMédica em Vale Verde usa seu tempo livre para fazer contado com Cuba e sua família
Médica em Vale Verde usa seu tempo livre para fazer contado com Cuba e sua família

Na microrregião dois são os municípios que serão afetados com a saída dos cubanos do Mais Médicos. Em Vale Verde, a secretária municipal de Saúde, Rosane Meurer, destacou, no entanto, que haverá um movimento para tentar evitar o retorno dos médicos à Cuba, já que o contrato com a profissional que atua no município termina apenas em agosto de 2019. O principal argumento é o econômico, já que o governo federal subsidia o profissional. 'Se tivermos que contratar outro médico para substituí-la vai nos encarecer, pois o valor de um profissional destes chega a quase R$ 15 mil mensais', destacou Rosane.

A médica cubana que atua em Vale Verde é Anairis de Armas Almeida, 48. Ela disse que já foi comunicada pelo governo cubano para retornar a partir do dia 25 de novembro. 'Se permanecer esta decisão estarei retornando ao meu país com certeza, e caso haja um acordo entre os governos brasileiro e cubano, permanecerei somente até o final do meu contrato, pois sinto falta do meu país e de minha família', garantiu a médica.

Em Mato Leitão, o secretário de Saúde, Arcênio Maldaner, já fala na realização de processo seletivo para contratação emergencial. 'A nossa profissional trabalha no Posto de Saúde Santo Antônio e só temos elogios a ela. Uma eventual saída vai nos prejudicar muito, pois é uma das peças importantes neste trabalho de prevenção, o que evita que tenhamos casos mais graves de saúde e hospitais lotados', comenta o secretário.

Embora seja favorável à permanência dos médicos cubanos no Brasil, Maldaner não concorda com a forma como o convênio é desenvolvido atualmente. 'Aqui em Mato Leitão, entre ajuda de custo, alimentação e aluguel, temos uma despesa de R$ 2,5 mil com a médica. O Governo Federal manda mais R$ 3 mil, aproximadamente, de salário, e outros quase R$ 12 mil vão para Cuba. Esta conta é fora da realidade, pois a maior parte do dinheiro vai para fora do Brasil', diz.

IMPORTANTE

Keytia Martin Amiot é a cubana que trabalha em Mato Leitão. Ela trabalha 40 horas semanais e está há um ano e três meses no município. Antes, de acordo com Arcênio Maldaner, havia outra profissional cubana trabalhando na rede de atenção básica, mas ela obteve registro para exercer a profissão normalmente no Brasil e atua sem a necessidade de amparo do Mais Médicos. 'Inclusive se casou aqui em Mato Leitão', comenta o secretário de Saúde.