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Trabalho em rede busca garantir inclusão de autistas em instituições de ensino

por: Juliana Bencke
Data: 18/04/2018 | 06:37
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Quando recebeu a informação que a filha Maria Clara de Moura, na época com 2 anos e meio, era autista, Josiane Beatriz dos Santos, 28 anos, ainda sem saber ao certo como lidar com o diagnóstico, gravou um conselho importante. "Não tire ela da escola."

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateMãe Josiane e profissional de apoio Adriana Seidel, da Emei Gente Miúda: integração pensando no bem-estar de Maria Clara
Mãe Josiane e profissional de apoio Adriana Seidel, da Emei Gente Miúda: integração pensando no bem-estar de Maria Clara

Cerca de oito meses depois de saber que Maria Clara tem o transtorno que afeta as áreas de comunicação e sociabilidade, Josiane encontra na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Gente Miúda, do bairro Macedo, um suporte fundamental para estimular as habilidades da filha.

Aluna do nível III da instituição, Maria é a única dos 127 estudantes da escola com laudo de transtorno do espectro autista, embora haja outros casos em investigação. "Trabalhamos todos juntos, com o mesmo objetivo", destaca a diretora da escola, Carla Isabel Herrmann.

O propósito, no caso de Maria, é garantir que ela tenha suas potencialidades desenvolvidas, de acordo com a faixa etária, incluída em uma turma regular: que participe das atividades e brincadeiras com os colegas, desenvolva a fala e a autonomia. "Ela prova todos os dias que é capaz. Se não estimularmos, ela não vai se desenvolver. Precisamos ajudá-la a aprender a ouvir, a sorrir, a falar", diz a mãe. 

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateCom auxílio e a dedicação da equipe da Emei Gente Miúda, a pequena Maria Clara recebe estímulos para desenvolver suas habilidades
Com auxílio e a dedicação da equipe da Emei Gente Miúda, a pequena Maria Clara recebe estímulos para desenvolver suas habilidades

Para isso, além da dedicação da família, do trabalho da professora e das monitoras de turma, Maria conta com o auxílio da profissional de apoio Adriana Seidel, 37 anos. "Cada coisa que a Maria faz é uma vitória para todos nós. Ela é muito carinhosa e inteligente. Buscamos estimular muito a questão sensorial e o contato com os colegas", destaca Adriana. 

O atendimento de profissionais de apoio (monitores concursados ou estagiários) é previsto em lei e oferecido, pelo Município, de acordo com a necessidade do aluno. "A ideia é de que o profissional auxilie, mas que a criança tenha a possibilidade de se desenvolver com autonomia", explica a assessora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação na área de Educação Especial, Juliane Weiss Niedermeyer.

Informação

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateJuliane destaca importância do atendimento individualizado, levando em conta as particularidades de cada aluno
Juliane destaca importância do atendimento individualizado, levando em conta as particularidades de cada aluno

Em meio a um número crescente de diagnósticos de autistas, nos últimos anos, o tema tem ganhado foco especial na rede municipal de ensino de Venâncio Aires. Segundo Juliane, profissionais da secretaria têm realizado cursos e buscado informações para instrumentalizar os professores e auxiliá-los na hora de tirar dúvidas e orientar as famílias. Atualmente, são 12 autistas atendidos em Emeis e seis em Escolas Municipais de Ensino Fundamental (Emefs), além de 12 na rede estadual de ensino.

Sintonia em atendimento multiprofissional

Especialista em Educação Especial, a assessora pedagógica da Secretaria de Educação, Juliane Weiss Niedermeyer, observa que a escola é uma das pontas de uma rede que precisa atuar em sintonia visando a qualidade de vida dos autistas - tanto para que os diagnósticos ocorram de forma precoce quanto para que o atendimento ocorra de forma integral.

Nessa rede de apoio estão profissionais da secretaria, como assessores psicoeducacionais, orientadores educacionais, professores de salas de recursos, neurologistas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e demais profissionais do Centro Integrado de Educação e Saúde (Cies) e da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

O espectro autista é amplo e, dentro disso, nosso principal objetivo é conseguir transmitir informações para as escolas para que se possam criar planos individualizados a essas crianças, sempre com o cuidado de não excluí-las e com o objetivo de incluí-las, de maneira gradativa, em atividades coletivas", Juliane Weiss Niedermeyer, assessora pedagógica da Educação Especial.

No caso de Maria Clara, além das atividades na Emei Gente Miúda, ela participa de estimulação precoce na Apae e tem acompanhamento com neurologista e fonoaudióloga, de forma particular. Em breve, também iniciará sessões de terapia ocupacional.

"O começo foi muito difícil, pois é como se te dessem um novo filho, que precisa ser estimulado o tempo todo. A ajuda de todos é muito importante. Precisamos todos falar a mesma língua e fazer cada um a sua parte", ressalta a mãe Josiane Beatriz dos Santos, que compartilha, diariamente, informações sobre o espectro autista e o desenvolvimento da filha com profissionais da escola. 

Um dos principais desafios, de acordo com a mãe, é estimular o desenvolvimento da fala de Maria. "Precisei parar de trabalhar para poder estabelecer a Maria, primeiro. Hoje, consigo enxergar além, ver que, antes do autismo, existe uma criança com um comportamento específico de cada faixa etária. Precisamos falar cada vez mais sobre esse assunto e mostrar a importância de o Poder Público investir em profissionais para trabalhar com essas crianças", defende Josiane.

Características

- Sem uma causa definida nem cura, o autismo é um transtorno que causa problemas no desenvolvimento da linguagem, nos processos de comunicação, na interação e comportamento social da criança.
- O diagnóstico de autismo é clínico, feito por um neurologista, por meio de observação do comportamento e de informações da família. Em geral, os casos mais comuns são de meninos.
- Dificuldade de contato olho no olho, isolamento, rosto inexpressivo, brincadeiras e movimentos repetitivos, dificuldades de criar vínculos de amizade e cooperação e brincar de 'faz de conta' estão entre os sinais do autismo.
- Algumas características já podem ser percebidas nos primeiros meses do bebê. Por isso, embora não sejam profissionais encarregados de diagnosticar o autismo, professores e monitores de escolas de educação infantil têm um papel importante, pois podem notar características no aluno.
5 Em alguns casos, além do autismo, há outras deficiências ou síndromes associadas. Por isso, e de acordo com o grau do autismo de cada criança, ela pode se alfabetizar ou não. O mesmo ocorre com o processo da fala.

Adaptações e individualidades

Um dos aspectos fundamentais no trabalho com autistas nas escolas, segundo a especialista em Educação Especial Juliane Weiss Niedermayer, é que cada aluno é um indivíduo com personalidade própria e diferentes graus do transtorno. Por conta disso, não existe uma fórmula única de trabalho, mas adaptações que precisam ser construídas em conjunto, pela família e os profissionais da saúde e educação. Como a quebra de rotina é um dos fatores estressantes para autistas e pode desencadear crises, uma das orientações é que haja adaptações nas atividades, preparando-os para as mudanças.

"Para evitar os fatores estressantes, é preciso que a escola conheça esses alunos, o que afeta eles. Em alguns casos, pode-se utilizar um objeto de transição, como uma bolinha, ou imagens para que a criança entenda a transição que está ocorrendo e vá até algum lugar", exemplifica.