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Pesquisa: a busca pelo saber, da Educação Infantil à universidade

Estímulo à pesquisa é forma de envolver estudantes e contribuir para a aprendizagem. Além disso, resultados dos estudos refletem em avanços para a sociedade, em diferentes áreas

por: Rosana Wessling e Taiane Kussler
Data: 15/05/2019 | 07:00

A pesquisa é uma das bases da educação. Independentemente do nível escolar, a metodologia surge a partir da curiosidade, gera interesse e busca por conhecimento. Para o professor Tiago Becker, diretor do Colégio Gaspar Silveira Martins, a pesquisa é essencial para o desenvolvimento do conhecimento e, por isso, é considerada um dos pilares da escola. 

'A pesquisa na Educação Infantil, geralmente, surge a partir da curiosidade das crianças. Muitos dos assuntos estão relacionados ao dia a dia dos alunos, que é trazido para análise em sala de aula', observa, ao lembrar que toda pesquisa surge a partir de questionamentos. 

Foto: Taiane Kussler / Folha do MateEstudantes realizaram pesquisa para entender o funcionamento do corpo humano
Estudantes realizaram pesquisa para entender o funcionamento do corpo humano

De acordo com ele, tudo o que desperta a curiosidade motiva os alunos e contribui com o aprendizado. Para deixar os estudantes engajados na proposta é importante abordar aspectos que tenham relação com a vida.

Segundo Becker, a internet também é uma ferramenta importante neste processo de conhecimento, mas o espírito da pesquisa vai além disso. 'É essencial que esta curiosidade desperte no aluno a vontade de querer mais, testar, ir atrás e buscar na prática para saber como funciona. Mais importante é ter a curiosidade e entender os porquês das coisas', salienta. 

Além disso, o diretor reforça a ideia do olhar crítico, uma vez que os alunos não devem se satisfazer com o básico, mas, sim, aprofundar a informação. 'As pessoas não podem ficar contentes com respostas simples, é necessário buscar além daquilo que é colocado', enfatiza.

Se desenvolvermos desde a Educação Infantil a ideia de que somos seres curiosos, teremos adultos capacitados para serem pesquisadores, que vão achar soluções alternativas para a incessante busca do conhecimento. O nosso mundo está cada vez mais baseado no conhecimento e menos em mão de obra mecanicista. É nosso papel como profissionais trazer este conhecimento que é adquirido por meio da pesquisa."

TIAGO BECKER

Diretor do Colégio Gaspar

Conforme o diretor, muitas vezes, a iniciativa surge a partir da observação do professor. 'Um dos exemplos práticos que ocorreu aqui na escola se originou do processo de origem do leite, quando uma das professoras percebeu que os alunos não estavam associando o leite à proteína animal . Um outro tema que gerou objeto de estudo surgiu a partir da curiosidade dos alunos quanto à formação da larva em borboleta. Atitudes do dia a dia que foram trabalhadas em sala de aula', comenta. 

Um dos trabalhos de pesquisa realizados por alunos de 4º ano do Ensino Fundamental do Gaspar, no ano passado, foi sobre o sistema do corpo humano. Orientados pela professora Priscila Maggioni, os estudantes foram divididos em grupos para pesquisar sobre cada sistema do corpo humano. 

'Neste caso, exploramos várias áreas do conhecimento. Após a pesquisa, os alunos aprenderam a elaborar perguntas para trazer para a sala de aula para trocar ideias com os demais colegas. O compartilhamento de informações foi mútuo, inclusive, as famílias também foram convidadas a participar', comenta a professora. 

Foto: Taiane Kussler / Folha do MateEstudantes realizaram pesquisa para entender o funcionamento do corpo humano
Estudantes realizaram pesquisa para entender o funcionamento do corpo humano

Depois disso, eles imprimiram partes do corpo humano em 3D e criaram maquetes para exemplificar o funcionamento dos órgãos. Conforme relato das crianças, essa foi uma experiência interessante, criativa e prazerosa, por meio da qual ele puderam aprender o conteúdo com facilidade e conferir como funciona o corpo. Além disso, eles se depararam com situações problemas e puderam encontrar soluções com a orientação do professor.

Iniciação científica, a base

A iniciação científica geralmente é inserida a partir do Ensino Médio, porém, algumas instituições já trabalham desta forma desde o Ensino Fundamental. O diretor do Colégio Gaspar, Tiago Becker, explica que, neste caso, a pesquisa surge a partir da pergunta e se utiliza uma metodologia para a obtenção dos resultados. 'Este método traz toda uma base para o Ensino Médio e posteriormente, faz com que o estudante já tenha conhecimento para construir artigos científicos e o trabalho de conclusão de curso, durante a graduação', comenta.

Ana Luíza Lenhart, 15 anos, teve o primeiro contato com a pesquisa científica no 9º ano do Ensino Fundamental. A estudante do Gaspar, que tem paralisia cerebral, escolheu o tema para desenvolver o projeto. 'Eu queria saber mais sobre este tema, por isso, pesquisei todos os tipos de paralisia cerebral e trouxe questões relacionadas à doença, assim como a inclusão na escola e a discriminação', comenta a aluna, que cursa o 1º ano do Nível Médio. 

'Achei todo o processo bem interessante e a parte que considero mais importante foi a pesquisa, porque descobri coisas novas e me identifiquei com o assunto. Só tive uma certa dificuldade para apresentar o projeto, porque sou um pouco tímida', afirma, sorrindo.

Durante o desenvolvimento do trabalho, Ana Luíza também desenvolveu um questionário voltado a professores, para saber se os profissionais sabiam conviver com a situação e se a escola estava preparada para agir com os alunos com paralisia cerebral. 'A partir desta experiência já adquiri uma base para os próximos projetos de pesquisa. Além disso, poder apresentar para os meus médicos e fisioterapeutas o trabalho que fiz e entender mais sobre o tema foi muito gratificante. Valeu muito a pena ter trabalhado em cima deste assunto', salienta a estudante.

Estudos variados e oportunidades de desenvolvimento para o país

A importância da pesquisa extrapola as paredes da escola: ela é fundamental para o desenvolvimento do país, para a criação de políticas públicas, auxílio à comunidade e avanço da sociedade. De acordo com o coordenador de Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) Adilson Ben da Costa, a pesquisa também é uma oportunidade do aluno se envolver com atividades fora da sala de aula. 'Com isso, obtemos uma formação mais completa do discente.'

Costa salienta que, universidade, praticamente todos os cursos têm pesquisa. Atualmente, a instituição desenvolve 145 projetos, envolvendo 155 docentes pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação.

O coordenador enfatiza que, ao considerar apenas as bolsas de iniciação científica e iniciação tecnológica, a Unisc disponibiliza 79 bolsas com recursos da própria instituição. 'Em função deste investimento institucional, os órgãos de fomento à pesquisa também disponibilizam bolsas. Assim, dispomos de 31 bolsas de iniciação científica fornecidas pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e 40 bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).'

Além disto, a Unisc tem pesquisa nos nove programas de pós-graduação: são 58 bolsistas de doutorado e outros 80 bolsistas de mestrado, totalizando 138 bolsas. 'A instituição investe sistematicamente em pesquisa e extensão nas cidades onde atua', enfatiza Costa.

Foto: Pexels / Divulgação Pesquisa está inserida na graduação e pós-graduação e, além de contribuir para a formação dos estudantes, é forma de auxiliar a comunidade
Pesquisa está inserida na graduação e pós-graduação e, além de contribuir para a formação dos estudantes, é forma de auxiliar a comunidade

Uma das pesquisas da instituição que vem tendo destaque é o aplicativo PhotoMetrix. Costa explica que ele é utilizado para realizar análises de dados por meio da utilização de imagens capturadas pela câmera de celulares smartphones. 'Esse aplicativo é livre, mas foi registrado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial por mim e pelo professor Gilson Helfer e tem se revelado uma excelente ferramenta de popularização da ciência.'

Adilson Ben da Costa observa que um mapa de usuários do aplicativo traçado em 29 de março deste ano confirma a relevância da pesquisa. 'Foram detectados 3.120 usuários de diversos países, entre eles, Indonésia, Japão, México, Alemanha, Nova Zelândia e Estados Unidos. Isso mostra que nossas pesquisas vão muito além das fronteiras nacionais.'

Saúde

Outro trabalho citado por Costa, que tem impacto direto no dia a dia da população é pesquisa sobre um novo método para o diagnóstico de problemas de saúde, como excesso de glicose, colesterol e triglicerídios, por meio da saliva do paciente.

O método é adaptado por Rosileidi Pappen Umpierres, com a supervisão dos professores doutores Valeriano Antonio Corbellini e Hildegard Hedwig Pohl. Segundo o coordenador de pesquisa da Unisc, poderá se tornar uma alternativa ágil na prevenção de doenças causadas pelo excesso de açúcar e gordura no sangue.

O procedimento já tem a validação do de Medicina da Unisc, entretanto, para que o método se torne uma alternativa no Sistema Único de Saúde (SUS), precisa ser validado pelo governo federal. Agora a pesquisa será submetida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Pesquisas e a sociedade

O coordenador de pesquisa da Unisc, Adilson Ben da Costa, elenca alguns dos projetos de pesquisa nos quais, somente pelo título, já é possível identificar a relevância destes para a sociedade.

- Desenvolvimento de métodos de diagnóstico e de alternativas terapêuticas para câncer e infecções oportunistas - Coordenadora: doutora Lia Gonçalves Possuelo.

- Narrativas da pós-verdade e fake news - Coordenadora: doutora Fabiana Quatrin Piccinin.

- O terceiro e o conflito: o mediador, o conciliador, o juiz, o árbitro e seus papeis políticos e sociais - Coordenadora: doutora Fabiana Marion Spengler.

- Projeto Sistemas de tratamento para desfluoretação parcial de águas subterrâneas com presença de flúor superior à estabelecida na Portaria MS n° 2914/2011. Coordenador: doutor Adilson Ben da Costa.

Em Venâncio

- A pesquisa é trabalhada em todos os níveis de ensino, em escolas públicas e privadas de Venâncio Aires. Anualmente, ocorre a Mostra de Trabalhos da rede municipal de ensino, além de exposição de projetos de escolas estaduais, selecionados para mostra regional.

- Todos os anos, o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) também promove a Mostra Venâncio-airense de Cultura e Inovação (Movaci). A instituição é referência em participação de eventos de pesquisa e extensão no Rio Grande do Sul e em outros estados.

- Recentemente, estudantes do IFSul tiveram dois artigos científicos selecionados para congresso da Sociedade Internacional de Educação Através da Arte (InSEA), na Ilha de Malta, na Europa.