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Informação para combater o preconceito

por: Juliana Bencke
Data: 02/12/2018 | 15:00
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Se dançar chula, polonese ou qualquer outra dança tradicionalista é considerado normal, por que uma música cultural de matriz africana causa estranheza e é associada de forma negativa à ideia de macumba? Essa é uma das reflexões propostas a partir do projeto 'Preconceito a expressões culturais de matriz africana no ambiente escolar'.

O trabalho, realizado pelos estudantes de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) José Duarte de Macedo, Vitória Graziane Spindler, Vitória Gabriela Lopes de Quadros e João Pedro de Vargas, e coordenado pelo professor de História Jair Luiz Pereira, debruçou-se sobre o assunto que passa despercebido no dia a dia, inclusive, na escola. Em outubro, o projeto recebeu menção honrosa na VII Mostra Venâncio-airense de Cultura e Inovação (Movaci), promovida pelo Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul).

Foto: Divulgação / DivulgaçãoAlunos João Pedro, Vitória Lopes de Quadros e Vitória Spindler e professor Jair apresentaram o projeto na VII Movaci
Alunos João Pedro, Vitória Lopes de Quadros e Vitória Spindler e professor Jair apresentaram o projeto na VII Movaci
Foto: Juliana Bencke / Folha do MateProfessor de História, Pereira tem pós-graduação em História e Cultura Afro-brasileira
Professor de História, Pereira tem pós-graduação em História e Cultura Afro-brasileira

Para o docente, que tem pós-graduação em História e Cultura Afro-brasileira e é mestre em Desenvolvimento Regional, desconhecimento e informações distorcidas sobre religiões e expressões culturais de origem africana ajudam a reforçar o preconceito às manifestações. 'O racismo existe de forma velada. Além disso, há muitas informações erradas, inclusive em novelas e na grande mídia, sobre essas manifestações.'

Professor e alunos chegaram às conclusões a partir de entrevistas e pesquisa em instituições de ensino. Em uma das atividades, estudantes de duas escolas responderam a um questionário após assistirem à apresentação de dois cantos religiosos na língua africana: um católico e outro evangélico. Entre as opções estavam, além de 'católico' e 'evangélico', 'umbanda' e 'macumba'. 

Na primeira música - um canto de missa afro-católica na língua Yurubá - apenas 6% das pessoas disseram que era um canto católico, 3% pensaram ser evangélico, 66% relacionaram a música à umbanda e 24% afirmaram ser macumba. 'Uma pessoa não quis votar porque disse que não tinha conhecimento para opinar', observa Pereira. 

No canto evangélico 'Andando na estrada do Senhor', entoado na língua Zulu, 2% votaram em católico, 12% acertaram, 29% consideraram que era umbanda e 57% macumba. Para o docente, a enquete demonstrou o desconhecimento dos alunos quanto à cultura de matriz africana. 'A maioria escolheu umbanda e macumba por causa da língua que era africana e pelo uso do tambor, o que, mais uma vez, demonstrou o desconhecimento, pois não foi usado um toque ritual, apenas foram preenchidos os espaços da música com toques de tambor', explica.

Desconhecimento

Demonstrações de desconforto, risos de desaprovação e comentários como o de que 'o jeito do professor era de macumbeiro' também foram observados pelos pesquisadores. 'O preconceito estava relacionado à ignorância. Os alunos não tinham conhecimento e o pior, nas entrelinhas, murmuraram que era macumba, relacionando as expressões com algo maligno e demoníaco, dizendo que era 'coisa do demônio'', comenta.

O trabalho elaborado pelos estudantes da EJA da Escola José Duarte de Macedo destaca, ainda, que a 'única pessoa que não votou, explicou que não conhecia e nem tinha ideia do que se tratava e, por isso, não votou'. Na análise dos pesquisadores, o comportamento dos demais participantes denota o preconceito, pois 'votaram sem conhecer e ninguém disse que eles eram obrigados a votar'.

Educação para enfrentar a intolerância e o etnocentrismo

Se a falta de conhecimento e a divulgação de informações falsas, distorcidas ou que ridicularizam expressões culturais de matriz africana contribuem para o preconceito a essas manifestações, a educação é vista como principal forma de mudar essa realidade. 'É apenas com a divulgação dessas expressões e com o conhecimento que se pode mudar isso. É preciso haver tolerância e respeito ao diferente', considera o professor de História Jair Pereira.

Não são poucos os exemplos de conflitos armados, atos de violência e terrorismo provocados pelo etnocentrismo e a intolerância cultural. No Brasil, os dados são alarmantes, principalmente contra religiões de matriz africana, associando-as a práticas demoníacas e satânicas, o que incita a violência."
JAIR PEREIRA
Professor de História

De acordo com ele, o trabalho nas escolas é fundamental para combater o etnocentrismo - visão de mundo característica de quem considera seu grupo étnico, sua nação ou nacionalidade mais importante do que os demais. 'A escola destaca-se como importante meio na formação de conhecimentos, comportamentos e valores através de uma aprendizagem significativa e transformadora, o que faz dela um importante espaço para superar os preconceitos e o etnocentrismo gerados pela ignorância.'

Na opinião do professor e dos alunos, ainda é preciso avançar no trabalho sobre a cultura e a história afro em sala de aula. 'Percebemos que, apesar da Lei 10.639/03, que já tem 15 anos e obrigada o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas, muito pouco se avançou em relação a esse tema. Ainda hoje, o que se conhece esta relacionado ao trabalhador escravizado, torturado e açoitado no tronco, diminuído em sua dignidade', observa Pereira.

Trabalho contínuo

A realização do projeto 'Preconceito a expressões culturais de matriz africana no ambiente escolar' está relacionada a estudos e diálogos realizados neste ano e em semestres anteriores, com alunos da EJA da Emef José Duarte de Macedo, sobre religiões de matriz africana no Brasil, tanto na disciplina de Ensino Religioso como na de História.

No ano passado, o tema deu origem ao projeto 'Preconceito e intolerância contra religiões de matriz africana (afro-brasileiras)', realizado pelos estudantes Debora Eliete Amâncio, Gabriel Lemos, Eduarda Spidula. O trabalho foi premiado na VI Movaci, na categoria Ciências humanas e suas tecnologias.

Foto: Divulgação / DivulgaçãoProfessor Jair com os alunos que realizaram o trabalho sobre preconceito a religiões afro-brasileiras, em 2017
Professor Jair com os alunos que realizaram o trabalho sobre preconceito a religiões afro-brasileiras, em 2017

Macumba?

Embora o termo seja utilizado, pejorativamente, para se referir a manifestações de religiões de origem africana, macumba é, na verdade, um instrumento musical de percussão semelhante a um reco-reco.

As oferendas colocadas em encruzilhadas que integram rituais de umbanda, chamadas equivocadamente de macumba, são forma de comunicação com os orixás - forças da natureza. 'As religiões de matriz afro são muito ligadas à natureza. A origem desse ritual está em oferendas que escravos faziam para outros escravos fugidos, para que pudessem se alimentar', explica o professor de História Jair Pereira.

Ele observa que a umbanda, originada no Brasil, mistura elementos de religiões africanas com a católica - como a existência de santos - e outras religiões, além de estar ligada a culto aos ancestrais, como pretos velhos e caboclos. 'O sincrentismo era utilizado pelos escravos para despistar, para que pudessem praticar sua religião, pois toda manifestação que não era católica era considerada satânica.'

Aspectos considerados no projeto

- Apesar de a Lei 10.639, que prevê o ensino da cultura e da história afro, estar em vigor há 15 anos, ainda há preconceito a expressões de matriz africana em ambiente escolar;

- A grande mídia e algumas religiões difundem falsas informações a respeito de expressões culturais e religiosas de matriz africanas;

- Vídeos e programas de televisão satirizam e ridicularizam expressões culturais de matriz africana;

- Há um acentuado grau de práticas etnocêntricas no cotidiano escolar;

- A falta de conhecimento a respeito do tema é um dos principais fatores da existência do preconceito e até de intolerância a expressões culturais de matriz africanas, no cotidiano escolar;

- Muitos professores não se consideram habilitados a abordar o tema em sala de aula;

- A desinformação leva as pessoas a identificarem toda e qualquer expressão cultural de matriz africana como sendo pejorativamente 'macumba', associando-a ao mal ou como demoníaca.