fechar

Cipaves mobilizam a comunidade no combate à violência escolar

por: Juliana Bencke
Data: 24/06/2018 | 07:18

Grupos formados por estudantes, pais, professores e funcionários das escolas têm a missão de identificar situações de violência e acidentes no ambiente educacional, investigar suas causas e planejar formas de prevenção. Tratam-se das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (Cipaves).

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateAluna da escola Brígida do Nascimento, Ana Júlia aprende e contribui com a instituição de ensino, como integrante da Cipave
Aluna da escola Brígida do Nascimento, Ana Júlia aprende e contribui com a instituição de ensino, como integrante da Cipave

Os comitês, que já são realidade nas escolas estaduais, começam a ser formados, também, na rede municipal de ensino de Venâncio Aires, a partir da aprovação de lei, neste mês. O objetivo? Reforçar as ações pela promoção da paz na educação.

A secretária municipal de Educação, Joice Battisti Gassen, ressalta a importância do trabalho e o carácter democrático da proposta, que envolve representantes de todos os segmentos da comunidade escolar. "Quando todos estão envolvidos, há um sentimento de pertencimento e busca-se entender a situação e construir uma solução de forma coletiva", considera.

Os conflitos são motivados por situações externas que chegam na escola. Sempre há os dois lados. Com a Cipave, pode-se resolver isso na escola, entendendo os motivos e mediando os conflitos, impedindo que eles saiam e se tornem problemas ainda maiores", Joice Battisti Gassen, secretária municipal de Educação.

Além de acompanhar os principais casos de violência escolar e buscar resolver a situação, por meio da mediação de conflitos e do diálogo, as Cipaves têm a função de promover ações para combater os principais problemas nas escolas - o que inclui desde agressões físicas e psicológicas entre alunos e com professores e funcionários, casos de indisciplina, bullying, brigas, acidentes de trânsito, depredação do patrimônio público e até mesmo tráfico de drogas.

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateSecretária Joice destaca importância da participação de diferentes segmentos da comunidade escolar nas comissões
Secretária Joice destaca importância da participação de diferentes segmentos da comunidade escolar nas comissões

Periodicamente, as comissões informam um relatório à 6ª Coordenadoria Regional de Educação (6ª CRE) com o número de ocorrências dentro do colégio e nas proximidades do estabelecimento de ensino. Os dados ajudam a compor um mapeamento regional da situação de violência nas escolas.

Segundo a coordenadora do programa regional da Cipave na 6ª CRE, Marlei Eliane Tuchtenhagen, o principal objetivo do trabalho é garantir que as instituições de ensino observem a própria realidade e, a partir disso, busquem auxílio dentro ou fora da escola, para resolver as questões. 

"O importante é buscar parcerias, com os mais diferentes órgãos, como Brigada Militar, Corpo de Bombeiros, Conselho Tutelar, serviços de saúde ou Ministério Público, para prevenir os casos de violência e acidentes", exemplifica.
De acordo com ela, na área de abrangência da 6ª CRE, onde todas as escolas estaduais têm Cipaves, desde 2016, já é possível perceber a redução dos índices de violência, o que reflete em melhoria da qualidade de ensino.

"Assim como é fundamental ter uma boa alimentação para ter condições adequadas para estudar, o aluno precisa ter as condições psicológicas para aprender da melhor forma. Se ele passa horas na escola, mas não se sente bem naquele ambiente, não tem como se concentrar e aprender", argumenta.

Ranking da violência escolar 

1 Indisciplina escolar, com desrespeito aos professores e direção e às regras da escola
2 Briga entre alunos
3 Agressão a professores e funcionários
4 Bullying
* Na área de abrangência da 6ª CRE

>> A lei estadual14.030, que institui as Cipaves, é de autoria de Maria Helena Sartori - atual primeira-dama do Rio Grande do Sul -, enquanto deputada estadual, em 26 de junho de 2012. Na data, celebra-se o Dia Estadual da Prevenção à Violência Escolar.

>> Em Venâncio Aires, a implantação das Cipaves é estabelecida pela Lei nº 6.151, de 12 de junho de 2018. O projeto do Executivo foi aprovado pela Câmara de Vereadores, a partir de uma indicação da vereadora Helena da Rosa (PMDB).

Possibilidade de aprender a conviver e dialogar

Para a secretária municipal de Educação de Venâncio Aires, Joice Battisti Gassen, um dos aspectos de maior importância do trabalho das Cipaves é mediar a resolução de conflitos e impedir que situações saiam da escola e se tornem um problema ainda maior.

Foto: Juliana Bencke / Folha do MateSupervisora Eloisa e aluna Ana Júlia destacam melhorias na convivência escolar, com a Cipave na escola Brígida do Nascimento
Supervisora Eloisa e aluna Ana Júlia destacam melhorias na convivência escolar, com a Cipave na escola Brígida do Nascimento

Além disso, ela entende que o trabalho preventivo e de promoção da paz proporciona aos alunos um aprendizado que extrapola o de conteúdos. "Aprende-se a conviver, a se tornar uma pessoa melhor, a lidar com situações diferentes, resgatando o respeito e fortalecendo as relações."

Aluna do 8º ano, Ana Júlia Furtado Leindorf, 13 anos, integra a Cipave na Escola Estadual de Ensino Fundamental Brígida do Nascimento, em atividade desde 2015. Para ela, um dos principais aprendizados com o trabalho na comissão é compreender que cada pessoa tem problemas e situações particulares que a levam a agir de determinada forma. "Acho superlegal discutir sobre essas questões de violência na escola, poder dar minha opinião e poder ajudar a resolver."

Na visão da estudante, desde que a Cipave passou a funcionar no colégio, é possível perceber uma redução nos conflitos entre alunos e "nas brincadeiras de mau gosto". A supervisora escolar Eloisa Malvina de Moura e a orientadora educacional Fabiane Roseli Eichler confirmam. 

"O relacionamento entre alunos mudou. Quando acontece algo, eles mesmos conseguem notar e buscar auxiliar os colegas", comenta Eloisa. "Quando se consegue mediar esses conflitos, evita-se que se chegue ao extremo", complementa Fabiane.

Neste ano, a escola Brígida passou a contar, inclusive, com uma sala específica da Cipave, onde os integrantes da comissão podem conversar com estudantes envolvidos em situações de brigas e, inclusive, promover o diálogo e o entendimento entre eles. "Geralmente, primeiro, conversamos separado com cada aluno, buscando ouvir os dois lados e entender o que aconteceu. Depois, colocamos eles frente a frente para conseguirem resolver o problema", explica Eloisa.

Encontro municipal ocorre na terça-feira

Na próxima terça-feira, 26, quando a legislação estadual completa seis anos, Venâncio Aires sedia o I Encontro Municipal da Cipave da Rede Pública de Ensino. O evento ocorre na Câmara dos Vereadores, a partir das 13h30min, e contará com palestras e troca de experiências entre as escolas. Enquanto a professora Marlei Eliane Tuchtenhagen, da 6ª CRE, abordará o tema 'Cipave: combatendo a violência no ambiente escolar', a docente da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Susana Más, falará sobre 'Educação para a paz na escola'.