Folha no Ar Terra

Há 10 anos: para relembrar, entrevista com Mano Menezes

por: Rui Borgmann
Data: 17/12/2018 | 16:50

Foto: Foto Terra FM / Catia KistRui Borgmann, Mano Menezes e Telmo Kist, em dezembro de 2008
Rui Borgmann, Mano Menezes e Telmo Kist, em dezembro de 2008

Um início de dificuldades nas categorias de base do Guarani em 1992, a primeira oportunidade nos profissionais em 1997, Mano Menezes trabalhou duro, se dedicou aos estudos, ouviu profissionais e aos poucos foi conquistando espaço, adquirindo experiência em clubes como Brasil de Pelotas, Iraty, 15 de Novembro, Caxias, Grêmio e atualmente no clube de maior torcida e tradição do país. Até onde vai chegar o passobradense Luís Antônio Venker de Menezes?

Porém, a maior curiosidade, e que ele não deixa de lembrar e contar aos amigos, são as três demissões na carreira de treinador, e todas pelo mesmo clube. Em 1997, 1999 e 2003 Mano deixou o comando do Guarani de Venâncio Aires, clube que o projetou.

Tive a oportunidade de realizar uma entrevista com o técnico do Corinthians, dia 13 de dezembro de 2008, quando o profissional visitava a sua terra natal. Dia 26 de dezembro de 2008, Mano inicia a pré-temporada no Timão.

Como foi sua decisão de deixar o Grêmio estando na primeira divisão e pegar o Corinthians na Segundona?
É difícil na carreira repetir bons resultados. Existem bons técnicos e a paridade dos times é muito grande. É um desafio a cada temporada. Mas havia decidido encerrar minha passagem pelo Grêmio. Já eram três temporadas e uma boa condição para isso. Estávamos saindo de um vice da Libertadores e eu precisava vislumbrar uma seqüência fora do RS e nada melhor do que iniciar no maior centro do futebol brasileiro, que é SP, e entendia que as condições pra iniciar o trabalho no Corinthians eram as ideais, mesmo com as dificuldades de uma segunda divisão. A experiência vivida no Grêmio em 2005 mostrou que o momento de o técnico iniciar um trabalho, - e aprendi isso com o Felipão (campeão mundial pela seleção em 2002) -, é o nas dificuldades de um clube.

E essa paixão que existe na torcida do Corinthians. Como lidar?
O Corinthians é um trator em termos de mídia. O que a imprensa passa para o Brasil muitas vezes não é a realidade. Às vezes se tem a idéia de que se tem um protesto no Parque São Jorge, mas são 20 pessoas que ficam num cantinho, fazem um barulho danado. E o espaço do campo, do dia-a-dia é absolutamente normal. Mas lá você dorme ídolo e pode acordar um vilão.

Você estipulou uma meta na carreira de treinador?
É muito difícil trabalhar com projeção no futebol. Pois na mesma maneira que pode ser rápida, como é o meu caso nos últimos anos, também pode ser na direção contrária. Estamos acompanhando a recuperação de um profissional que nos últimos anos vinha tendo dificuldades no trabalho, que é o Tite, e depois passou por um momento delicado. E ele também teve uma carreira espantosa no início. Temos que ter muita humildade para saber que depois de conquistar alguma coisa, o trabalho continua. Procurei me preparar bem para as oportunidades, tive sorte, bons professores e valores. Tive convivência com muita gente boa, e de referência, com muitas pessoas do lado, como em Passo do Sobrado, que nos passaram valores. Isso eu considero muito.

E as dificuldades enfrentadas no início da carreira?
É importante falar nisso, pois as pessoas não tem uma noção exata, que é onde inicia o trabalho da formação do profissional. Eu realmente ia nos fundos do Edmundo Feix, lá na casa da tia Maria, que era a lavadeira do clube, para pegar uma caixinha com camiseta e calção, nem chuteira nós tínhamos na categoria de base de 1992. Mais duas bolas para fazer chute a gol com 20 jogadores. A gente passa por sacrifício para passar por determinadas barreiras. Lembro que classificamos na primeira fase nos juniores e o nosso presidente pensou em não disputar a segunda fase pelas despesas. O Guarani sempre viveu essas dificuldades e para a nossa tristeza ainda vive hoje. Nós fomos fazer um treino-apronto contra o Grêmio de Danrley e cia limitada. Fizemos uma preparação de quatro contra quatro, no campo do Botafogo, com duas goleirinhas de taquara. Se o Grêmio visse a nossa preparação na véspera de jogo poderia pensar que aplicaria 8 a 0, mas perdemos só de 2 a 1, e quase que complicamos lá no Olímpico. Já no segundo turno nós ganhamos de 2 a 1 no Edmundo Feix. Então passamos por isso. Venâncio sempre teve muita qualidade nos jogadores e aproveitamos esse momento para iniciar um trabalho e felizmente teve continuidade.

Relembre um pouco da campanha de 1988, que culminou com a inauguração dos refletores do Edmundo Feix. No próximo dia 20 são comemorados 20 anos?
Tenho essas coisas muito claras. Lembro desse jogo da inauguração dos refletores no Edmundo Feix contra o Inter. Perdemos de 2 a 0, com gols de Edu e Aguirregaray. Em 1988 demos os primeiros passos do Guarani profissional. Venâncio Aires sempre teve bons jogadores, mas nunca teve uma organização. Foi quando o Artur (Ruschel) começou na preparação física e trabalhávamos à noite. Aprendemos isso muito cedo. O time de 88 foi se formando, se tornou muito forte em termos táticos. Dificilmente sofríamos um gol, pois decidimos as três fases nas penalidades máximas.

Com a saída do preparador físico do Corinthians, Flávio Trevisan, criou-se a expectativa da ida de Artur Ruschel para o Parque São Jorge. O que tem de verdade nisso?
Primeiro a minha consideração ao Artur é muito grande porque começamos em 1988 no amador e em 1997 no Guarani também foi com ele. Dentro de campo ele foi ficando experiente, mas deixou a parte de formação de lado. Sei que era impossível trabalhar e fazer a universidade. Porém para um profissional de uma equipe grande, não ter a formação era um empecilho. Já a situação de saída do Caixas para o Grêmio não foi possível em função disso. Cobrei dele bastante e agora acabou a formação. Isso vai proporcionar a ele aliar toda a experiência que ele teve dentro de campo. Ele teve duas vezes no Corinthians conosco fazendo uma atualização e certamente vai voltar para o mercado de ponta. Nós trocamos um preparador físico em função de dificuldades financeiras e eu não iria colocar o meu amigo na linha de frente. Isso criaria para ele uma responsabilidade muito grande. Então ele vai voltar para uma equipe intermediária, que deve ser o caminho e logo ali na frente nós vamos voltar a trabalhar juntos, porque gosto muito dele e acredito na capacidade dele acima de tudo. O preparador físico do Corinthians para 2009 é o Flávio Oliveira, do Grêmio.

E o Ronaldo Fenômeno, o que acrescenta na equipe do Corinthians?
Todo mundo sabe que a situação do Ronaldo é peculiar. Ele está quatro quilos acima do peso, mas sua trajetória nos passa a confiança que ele pode voltar a jogar em alto nível. Vai depender muito dele. Tive uma conversa muito clara com o Ronaldo e me pareceu um jogador interessado em fazer este retorno. Não sei se vai jogar a próxima Copa do Mundo, mas ele tem como objetivo jogar e isto significa muito para a nossa equipe.

Já recebestes convite para treinar a Seleção Brasileira?
O Luis Felipe Scolari quando saiu da seleção de Portugal ventilou o meu nome. Tivemos juntos num almoço quando estive em Lisboa, com integrantes da Confederação Portuguesa de Futebol. Quando se cita um nome, é porque pode lá na frente isso acontecer. Eu entendo que preciso avançar para ter uma credibilidade maior e estar à frente de um trabalho desta grandeza.
Em relação à seleção, nunca fui convidado, pois essas questões são muito pontuais. Em certos momentos tive sondagens para assumir o Grêmio e fiquei torcendo para não receber o convite, porque entendia que não era a hora. Tem situações em relação à seleção que penso da mesma maneira, porque o técnico precisa fazer um bom trabalho e ter conquistas importantes. A seleção exige muito mais do que um clube. E as conquistas trazem a credibilidade e as pessoas passam a entender e ter um pouco de respeito quando aparecerem as dificuldades.

 

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O esporte sempre esteve presente em minha vida, desde a infância. Como quase todo menino, meu sonho era ser jogador de futebol, mas confesso não sentir frustração alguma por não ter conquistado espaço nos gramados, à medida que uma minoria consegue realização plena na carreira de futebolista.
O Blog do Rui traz informação e opinião sobre o Guarani de Venâncio Aires, sobre a Assoeva na Liga Nacional e Estadual de Futsal, além dos demais esportes de destaque na região. A dupla Gre-Nal também recebe seu espaço.

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